A violência de gênero e o amor romântico

Tenho percebido, e falo especificamente do meio feminista virtual, pouca disposição para a discussão da não-monogamia. Os principais argumentos são de que sua desconstrução não é tarefa das mais fáceis ou ainda que se trata de uma escolha pessoal. Nesses termos, iniciar um debate me parece um tanto desconfortável. Uma alternativa iniciar o debate com a apresentação do amor romântico e sua relação com a violência de gênero, com o machismo.

E se Michelle Obama deixasse o cabelo natural?

Michelle Obama ao naturalMichelle Obama ao natural

Lembrei de conversa que tive num ônibus da vida com uma senhora negra usavando apliques que já não mais escondiam a alopecia causada… por apliques. Nas têmporas nuas, alguns fiozinhos cuja queda era uma crônica de uma careca anunciada, tracionados pelo cabelo artificial. Quando me viu, precisou olhar duas vezes. Na terceira, estava perto de mim. Com a mão hesitante em direção aos meus cabelos que, naqueles dias eram um black power de 3 anos, perguntou:

Senhora: Minha filha, como eu faço para ter cabelos como os seus?

A comunidade LGBTQ precisa deixar de ser transfóbica: percebendo meu privilégio cisgênero

Transfobia segrega e mataTransfobia segrega e mata

Todo dia é dia para se falar sobre transfobia. Ainda mais no Dia Internacional contra a Homofobia, uma ótima ocasião para toda a comunidade LGBTQ repensar seu posicionamento acerca desse problema muito mais que sério que segrega e mata. Agradeço a ativista Daniela Andrade a autorização para publicar sua tradução de um texto de Todd Clayton sobre o assunto. A [...]

125 anos de abolição, uma lei para (não) cumprir a lei

Mulheres na lavoura de tabacoMulheres na lavoura de tabaco

Em terra brasilis, a lei precisa “pegar” pra ser cumprida. Em muitos casos se mudança acontece, é lenta para que as pessoas se “acostumem” com a nova ideia. Como se o tempo da vida fosse muito diferente do tempo da lei. Quando o assunto é escravidão, essa dissonância é maior ainda. Tanto que a primeira lei sobre o fim do tráfico de escravos nunca saiu do papel.

Talvez por ser a primeira a versar sobre o fim da escravidão no país, mesmo que de forma indireta. Se executada, libertaria a maioria dos cativos alguns anos após a sua publicação. Considerando a expectativa de vida de um escravo como sendo de 20 anos em 1879, podemos inferir que em 1871 grande parte dos escravos estaria livre. Mas não foi isso que aconteceu.

Após 125 anos de abolição, cada mudança ainda é um esforço de permanência

A PEC das Domésticas certamente é uma segunda abolição. Acabou com a escravidão nas casas de senhores muitos patrões que, se pudessem, pagariam com migalhas o trabalho daquelas que são quase, quase da família. Muita gente espumou e bateu os pezinhos. Tanto agora como antes, a destruição de privilégio sempre faz jorrar chorume para e por todos os lados.

Como se um projeto abolicionista irresponsável permanecesse nas mentes e nos corações daqueles que gostariam de mudar as coisas deixando tudo igual. Burlar o pagamento dos encargos trabalhistas para as trabalhadoras domésticas através da terceirização já é tendência. Afinal ter a casa limpa sem o menor esforço é muito bom, sem pagar adequadamente é ainda melhor.

Esse tipo de resistência, todo um ranger de dentes, que presenciamos quando da aprovação da PEC das domésticas é histórica. Torna-se evidente nos debates parlamentares acerca da extinção do tráfico negreiro e da escravidão, onde se encontram inúmeros projetos para retardar e muitas vezes impedir a emancipação de africanos e brasileiros escravizados.

125 anos de abolição, um mito nacional em letras minúsculas

Infelizmente nada disso faz sentido para quem as coisas estão como sempre foram e o racismo onde sempre esteve, justificando horrores como a escravidão ontem e a desigualdade hoje. Muitos preferem acreditar que desde 13 de maio de 1888 vivemos em condições ideais de temperatura, pressão e meritocracia. Mesmo assim grafarei os 125 anos de abolição com letras minúsculas.

Aproveito a ocasião para dizer que muita coisa aqui será apresentada dessa maneira. Escrevo lei áurea por sua assinatura ter atendido em quase nada aos interesses daqueles cuja vida versava. Escrevo dona Isabel para dizer que não acredito na redenção, abolição para mencionar a lei tal como foi escrita, Abolição para denunciar tudo aquilo que foi e ainda é feito de caso muito bem pensado.

Hoje tem Oneirophanta no Blogueiras Negras. Blackface? Yes we can!

Vogue Holanda, cada vez que a mulher negra é homenageada, ela deixa de ser contratada como modeloVogue Holanda, cada vez que a mulher negra é homenageada, ela deixa de ser contratada como modelo

Agora que a África é tendência, ao invés de termos um aumento no número de modelos negras contratadas, temos presenciado um aumento alarmante da blackface no meio fashionista. O caso da vez é a Vogue Holanda que pintou o rosto de uma modelo para homenagear o trabalho Marc Jacobs para Louis Vuitton, inspirado na inesquecível [...]

Sobre a caloura Xica da Silva, nota sobre o trote racista e sexista na UFMG

Algumas manifestações do racismo costumam ser consideradas sem importância, ainda mais num país onde muita gente considera o próprio racismo como algo de menor importância. Alguns diriam que ninguém morre por não estar na capa da revista, nos espaços acadêmicos, nos desfiles de moda, na política. Ninguém morre por causa de mais uma piadinha, de [...]

Sobre uma guerra

Demonstrações de raiva, adoção de rótulos odiosos, falsas proclamação de vitória, negação da teoria na prática, ofensas pessoais. Estratégias que, segundo Schopenhauer, são usadas para vencer um debate sem precisar ter razão. Há muito não se trata de estar ou não certo. O único problema é que, nesses termos, vencer pode significar destruir a si mesmo.

Çocorro! Carro velho, casa feia e mãe solteira são marcas do diabo

Lá vou eu verificar o blog do Edir Macedo e me deparo com um post maravilhoso sobre as marcas do diabo. Infelizmente o ataque à não-monogamia, o sexismo, a completa falta de compaixão, o preconceito social e a teologia da prosperidade não são crimes. Resta pra mim, amaldiçoada por Noé, um “check” nas minhas próprias marcas e comentar outras.

Sobre a atuação totalitária da bancada evangélica

Semana passada fiz questão de declarar o quão triste é presenciar a construção de um regime totalitário. Pra nossa alegria, ainda estamos um pouco distantes de modelos clássicos como o alemão, russo ou italiano, de deixarmos de ser um estado laico. Ainda assim, a atuação do que se convencionou chamar de bancada evangélica tem sido muito mais que uma simples ameaça à ideia de estado democrático de direito.

Ser negro, ser afrodescendente e o apagamento das estórias de apagamento

Para muita gente a escravidão é um processo histórico concluído com a assinatura da lei áurea (que detesto grafar com a inicial em maiúscula) – como se negros e afrodescendentes não precisássemos lutar ainda hoje pela sobrevivência de nossa etnia. Quando falamos sobre racismo, muitos gostam de afirmar que têm amigos, namoradas e namorados e até funcionários negras e negros. Mas onde estão nossos avós negras e negros? Nossas mães, nossos pais?

Gordofobia como piada ou mais hilário que um, só dois gordos rolando

Note que rolar é possivelmente a única aptidão que uma pessoa gorda tem. A graça do filme é justamente essa, a certeza que de se os bichos comessem fast food ficariam meio parecidos como a gente (nesse caso, os gordos) – patéticos e engraçados. E não adianta argumentar, isso é uma simples piada. Nem sei porque gente como eu e você arrumamos tempo para nos importar tanto com isso.

O funk como acontece e como é mostrado na televisão

Interessante observar como as culturas de gueto são digeridas e entregues para o grande público. Foi assim com o punk e o grunge (só para citar dois exemplos que presenciei) é assim com o funk. Quer dizer, mais ou menos. Os primeiros deixaram de ser uma manifestações culturais de grupos muito específicos e se tornaram negócios mundialmente rentáveis, quase universais.

Com o funk, apesar das inúmeras tentativas, até o momento o alcance dos produtos originais é mais expressivo que qualquer apropriação. Resumindo, as releituras simplesmente parecem não funcionar e soam pouco palatáveis. Mas, se tomarmos como exemplo outra cultura jovem de preto como o rock, tudo pode mudar.

Sobre os direitos individuais dos andróides

Por isso é tão sintomático que precisemos falar esse tipo de coisa numa sociedade sob Estado Democrático de Direito, como o Brasil. Esclarecer que Igreja não deve se entranhar nas questões de estado, na vida privada. Precisando dizer o quão nocivo é a censura ao modo como cada um vive sua vida. Tendo desesperadamente explicar que lutar pelos direitos do indivíduo como chupar piroca é na verdade a luta pela liberdade de todos nós.

Museu Nabokov acusado de estimular a pedofilia, ocharolastro comenta

Chamei meu consultor para assuntos literários, cozinheiro e garoto de programa para comentar as recentes (e requentadas) acusações ao Museu Nabokov que, segundo grupo ultraconservador russo Os cossacos de São Petesburgo, promove a pedofilia. O grupo ameaçou o museu com a ira de deus e perguntou :

– Como vocês podem continuar sem temer a ira de Deus promovendo a pedofilia de Nabokov?

Ocharolastro responde.

Tudo que não comentei sobre racismo na semana passada

Porém, nenhum aspecto escapa a uma cultura e sociedade racistas. Nada e ninguém estão imunes ao racismo. Nem eu, nem você, nem aquele carinha super legal da internetchy. Muito menos a nossa tecnologia, nossos ídolos ou o modo como as pessoas recebem a possibilidade de uma mulher branca namorar um homem negro.

Sobre tudo o que eu não comentei sobre racismo na semana passada.

Anotações sobre a tragédia em Santa Maria

Agora, até mesmo os mortos estão sob a odienta ideia de moral e bons costumes. A ira divina os matou porque dançavam bebiam e festejavam. Recentemente, o surgimento de leis para oprimir tudo aquilo que é o outro, tudo aquilo que não sou eu. A sensação de que a fumaça tóxica dos incêndios em Lisboa e Santa Maria se transforma em outra e segue contaminando muitas mentes e não sei quantos outros corações.

Repúdio ao racismo da Cadiveu

A Cadiveu é uma empresa de cosméticos que recentemente fez uma ação de marketing desastrada e racista que consistiu em fotografar alguns clientes com uma peruca black power e um aviso nas mãos dizendo “eu preciso de cadiveu”. Após muitas queixas, a empresa se pronunciou, porém sem assumir o teor racista e agressivo da campanha. [...]

Porque (eu vou tentar) ler a Odisseia

Tenho a impressão de que todo mundo leu a Odisseia, menos eu. Acabei criando todo um universo mágico em torno dos primeiros clássicos justamente por isso. Sempre tomei por verdade que sua leitura demandaria um conhecimento aprofundado de mitologia grega, logo não seria para o bico de gente como eu que mal e porcamente conhece meia dúzia de nomes de deuses (e nunca sabe se são gregos ou romanos). Mas isso vai mudar agora!

O artista jovem precisa vender bem?

A resposta é não. O grande barato de ser uma artista jovem hoje é entender que pela primeira vez em séculos o fazer artístico não precisa estar atrelado ao mercado de arte para ser considerado bem sucedido. Entretanto, essa não é uma constação tão óbvia quanto parede num mundo em que as obras podem alcançar facilmente a casa dos milhões de dólares e se tornam célebres justamente por isso.