
Esse da foto é ninguém menos que Kasper Can’t-Take-Our-Eyes-Off-Him Sokol, artista e membro do coletivo Voina (algo como “guerra”) renomado grupo de artistas de vanguarda (falemos nesses termos, por enquanto) russos. Com menos de 3 anos de idade, participa de ações artísticas desde seu nascimento em 2009. Já apanhou e foi preso 3 vezes pela polícia russa. Não tem residência fixa por que seus pais, fundadores do grupo do qual faz parte, renunciaram ao uso do dinheiro há alguns anos.
Nessa imagem é observado de pertinho por sua mãe, Sokol.
O grupo tem orientação anarquista. Sua organização é horizontal mas se torna vertical durante suas performances, o que é pra lá de interessante e aumenta sua eficiência, digamos assim. Sua obra é descrita como arte de protesto político, super benvinda numa Rússia onde
the government officials and the so-called “elite”, who follow some dubious ethics, considering their population to be cattle and making sure they are all following a steady path of self-destruction in order for this very elite to be able to lead a comfortable life and hold on to their places. I’m talking about the pharmaceutical industry hooking people up on life-long medications, the neo-liberal craze where the strongest gets it all, the social systems designed in a way that can support huge bureaucratic machines, while promoting mass-apathy, the prevalence of consumerist approach that is spilling out to people’s relations – just a few examples.
Alexey Navalny, a prominent Russian anti-corruption activist, talking about the real state of things, the Russian elite, their morals, and motivations.
Quaisquer semelhanças são pura coinciência.
Como muitos artivistas, seus objetivos foram estabelecidos numa espécie de manifesto. Preocupa-me a construção de uma imagem romântica do artista como intelectual e herói que prevalecerá contra o mal. E como o inimigo é o governo e o sistema de coisas russo, é preciso provocar respostas emocionais profundas. Pretendem ainda criar uma arte de rua nacional, que não seja provinciana ou conformista, a ser admirada por artistas estrangeiros.
Renunciaram ao uso do dinheiro (super cool), andam de bicicletas e não tem residência fixa. Coisas que admiro e para quais pretendo caminhar. Mas voltando ao grupo, está construído todo um cenário para uma (triste) mistificação de suas personagens. Sobretudo se falamos nos fundadores do grupo, os pais de Kasper: Oleg Vorotnikov e Natalia Sokol. Ele um filósofo e ela uma PHD em Física. Jovens brilhantes que renunciaram ao sistema pela arte. Mais romântico impossível.
Românticos sim, mas igualmente letais em suas ações que incluem sexo grupal em público, a borrifação de urina em policiais, o desenho de uma pica de quase 70 metros de altura pintada em menos de 30 segundos, a encenação de um suicídio num supermercado (por que meu deus não pensei nisso antes?). Com direito a performance apócrifa com baratas enormes e vivas e a dissidência. Não é por menos que o serviço de inteligência russo os descreve como
“a left-wing radical anarchist collective whose central goal is to carry out PR actions directed against the authorities, and specifically against law enforcement officials with the aim of discrediting them in the eyes of the public. Branches of VOINA exist in all major Russian cities. The group’s sympatizers number approximately 3000. VOINA members maintain contacts with anarchist groups and individuals from all around the world holding left-wing radical views on art and on the world order (Italy, Slovakia, France, USA, South Africa, Greece)”.

Cartaz reproduz a performance de suicídio
Por isso as implicações legais para o pequeno Kasper. Mas ele não está sozinho, infelizmente. Outra criança pode ser vista nas imagens do grupo Voina: Katrina, 5 anos, filha de Taisiya Osipova. E adivinhem? Osipova está presa. O grupo Voina alega que foram plantadas drogas no seu caso. Vale completar a estória com a informação de que não há provas comtra Osipova que é casada com Sergei Fomchenkov, membro do comitê executivo do The other Russia, oposição serrada à elite russa.
E por que falar disso justamente hoje?
É que dia 27.12, às 10h (hora local) acontecerá a defesa de Osipova, na cidade de Smolensk. A acusação, como de costume, provavelmente argumentará pela alienação do poder parental de Fomchenkov e Osipova, à exemplo do que aconteceu aos pais de Kasper Sokol e de Ivan Aksenov, garoto de 6 anos cujo pai é jornalista. Como o grupo Voina tem grande atuação e alcance (até Bansky já colaborou financeiramente com o grupo), o mínimo que se pode esperar é alguma ação. Dedos cruzados e olho atento no site oficial do grupo e em seu fotolog.

Taisiya Osipova