Créditos - Charô Nunes

Por si mesma

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Dália nunca esqueceu como aquele menino entrou em seu corpo como um fantasma, uma maldição. Não pediu qualquer licença. Sem qualquer esforço virou a menina de cabeça pra baixo por sobre seus ombros, expondo sua intimidade de criança “por acaso”. E ao mesmo tempo que afastava sua calcinha, aqueles dedos brancos inocularam o mal. Quem viu pensou que a menina de debatia por manha, sem sequer ouviram as palavras que eram sussuradas em seu ouvido:

Jamais serás amada, jamais serás amada, jamais serás amada.

Foi tudo muito rápido. Dona Branca correu para acudir. Seu óculos escorregavam pelo nariz suado e ofegante, aquela verruga marrom onde morava um único fio de cabelo parecia ainda maior. Que mãe não tentaria salvar seu filho daquela negrinha selvagem que o arranhava mesmo sem ter unhas? Para evitar qualquer contaminação, derramou um litro inteiro de alcóol nas costas brancas e nuas do moleque, que ardiam vermelhas em brasa.

Bem feito.

Mesmo temendo ofender a deus, Dália sentiu prazer. Não sabia que a partir daquele dia, o menino viveria dentro dela, fazendo aquelas palavras ecoarem cada vez mais fortes no vazio que aumentava com a sua presença. Outras vezes podia ser visto habitanto outros corpos, para desespero da menina. Então, acreditou quando ele disse que a mais bonita da escola andava ao lado da mais feia. Não se encantou pela imagem que viu no espelho ao completar 15 anos, o que aconteceria somente décadas mais tarde por causa daquelaaaaaaa foto.

Sei que tentou tirar a própria vida quando o espírito, já crescido, apareceu como um homem loiro dos olhos azuis da cor do mar. que lhe prometeu amor e foi embora sem sentir as dores do adeus. Aquele com quem ela montou casa e teve filhos, até mesmo netos, durante uma semana de promessas de verão. Assunto que a menina, agora uma moça, reservava apenas para os mais chegados. Outras tantas vezes para desconhecidos quando, sem qualquer anúncio, desatava em lágrimas como se a tristeza finalmente transbordasse depois do primeiro copo de cerveja.

Jamais serei amada, jamais serei amada, jamais serei amada?

Quem bem reparasse podia ver lá no fundo de seus olhos que havia mais alguém lá dentro, controlando palavras e ações. Porém o silêncio da menina fez com que as pessoas se acostumassem com seu choro e mãos suadas. Desde até onde se lembravam, sempre foi assim mesmo, calada e rabugenta. Passados muitos anos, ninguém reparava no arranjo maldito. Mesmo Dália já não sabia mais quem era e quem era o menino, dividiam o mesmo corpo. Pareciam condenados a ser a mesma alma.

Queria poder contar com detalhes o que aconteceu depois que ela foi morar no Rosana, onde tem a feira de domingo. E quando a gente esperava o buzu no terminal de manhã, cada uma pegando uma linha diferente, não tinha jeito para perguntar. Só sei que sua pele foi ficando mais bonita, num tom de dourado que descansava os olhos. Já não andava olhando para baixo, como se quisesse enterrar a si mesma a cada passo.

Dália resplandecia naquele vestido amarelo, que nada tinha de especial além de ser acinturado por uma fita azul clara. Parecia flutuar enquanto repetia que nunca fora tão feliz em sua vida. Cantava como se descobrisse cada notaaaaaaaaaaaa. Todos notaram a diferença, mas pouca gente sabia o porquê. Nem mesmo eu. Me bastava ver o que todos podiam.

— É amada, é amada, é amada.

Por si mesma.

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