Arte

A felicidade, por Robert Louis Stevenson

By June 10, 2012 No Comments

Tenho a sorte de conviver com uma pessoa que adora ler e compartilhar suas leituras. Então basta lhe pedir alguma dica e aguardar por uma grata surpresa a cada livro ou autor recomendado. Foi assim que amor dele por literatura fantástica acabou me contagiou. De cara comprei 4 antologias do gênero mas… Não sabia por onde começar. O conselho foi experimentar O demônio da garrafa, minha primeira e uma das mais prediletas leituras de Robert Louis Stevenson. Assim como A pata do macaco, é imprescindível. Mas confesso, é menos assustadora.

A felicidade tem prazo de validade

A felicidade e a perdição de Jekyll residem na pessoa de Hyde.É uma felicidade triste, um horror sublime de superar a incompletude de ser bom e mau ao mesmo tempo. Mas esse estado, essencialmente contemplativo, tem prazo para acabar. Dura até que Hyde decide cometer algum crime ou até efeito do pó branco se desfaça. Para Markheim, a felicidade também é contemplativa e ganha ares de um tempo em suspensão: desde o momento do assassinato até que chegue alguém no aposento e coloque sua consciência à prova.
Sempre em dicotomia, universo stevensoniano de O demônio da garrafa também apresenta duas possibilidades: o intervalo entre comprar e usufruir de seus encantos para então rapida e desesperadamente vender, por um preço inferior ao que foi adquirida,  a garrafa e seu demônio. A idéia é usufruir de sua posse por um breve período de tempo e então se desfazer dela. O demônio satisfaz qualquer que forem os desejos de seu dono mas aquele que a possuir em definitivo poderá ir para o inferno. Ou quintos dos infernos, como descreve Stevenson. As graças do diabo, assim como a felicidade, não duram para sempre.

“Sem dúvida estou no caminho certo”, penou Keawe. “Todas essa roupas e carruagens novas são presentes do pequeno demônio, e esses rostos felizes são rostos de homens que obtiveram seu lucro e se livraram da abominável criatura em segurança. Quando eu encontrar algum rosto pálido e ouvir suspiros, saberei que estou perto da garrafa”.
Então finalmente aconteceu de recomendarem a que que procurasse um haole na Betania Street. Quando chegou à porta, mais ou menos no horário da última refeição do dia, encontrou os costumeiros sinais da casa nova, do jardim recém-plantado e da luz elétrica brilhando nas janelas; mas quando o proprietário apareceu, um choque de esperança e medo percorreu Keawe; porque ali estava um jovem, branco como um cadáver, de olheiras profundas, o cabelo muito ralo e no semblante a expressão de um homem a caminho da forca.
“É aqui, com certeza”, pensou Keawe, e então para aquele homem ele de modo algum ocultou seu propósito:”Vim comprar a garrafa”, anunciou. Diante dessas palavras o jovem haole da Betania Street cambaleou e apoiou-se na parede.
“A garrafa!”, exclamou ofegante. “Comprar a garrafa!”. Então parecendo estar sufocado, agarrou Keawe pelo braço, levou-o até uma sala e serviu duas taças de vinho.
“À sua saúde”, disse Keawe, que convivera bastante com o haole nos tempos em que navegava. “Sim”, acrescentou, “estou aqui para comprar a garrafa. Qual é o preço agora?”
Diante disso, o jovem deixou a taça escorregar por entre os dedos e olhou para Keawe com uma expressão fantasmagórica.
“O preço”, disse ele, “o preço! O senhor não sabe o preço?”
“É por esse motivo que estou perguntando”, retrucou Keawe. “Mas por que está tão preocupado? Há algo de errado a respeito do preço?”
“A garrafa perdeu muito valor desde a sua vez, Senhor Keawe”, disse o jovem gaguejando.
“Muito bem, então devo pagar uma quantia menor por ela”, ponderou Keawe. “Quanto lhe custou?”
O jovem estava branco como uma folha de papel. “Dois centavos”, disse.
“O quê?”, exclamou Keawe. “Dois centavos? Ora então o senhor só pode vendê-la mais uma vez. E aquele que comprar…” As palavras morreram na língua de Keawe; aquele que a comprasse jamais poderia vendê-la novamente. A garrafa e o demônio da garrafa permaneceriam com ele até sua morte e então o carregariam para os quintos dos infernos.

E o que pode ser menor que um centavo? O preço funciona como uma espécie de relógio e cada centavo a menos dirige possuidor da garrafa para o inferno. É uma perspectiva bastante assustadora, a danação eterna. Mas… E a danação eterna de quem se ama? Comprar a garrafa por um centavo condenaria a alma de Keawe que apesar disso prossegue. E o que vale tamanho esforço? Oras, o amor!!! Keawe busca reaver a garrafa para trazer felicidade a seu amor, Kokua, para quem construiu a Casa Esplendorosa com a ajuda do demônio.

Uma arquitetura esplendorosa

Falando em a Casa Esplendorosa, sempre me comoveram os espaços de felicidade descritos por Stevenson. Uma casa onde habita um homem ou mulher feliz deve ter grandes janelas com flores e um jardim bem cuidado. E foi exatamente isso que construiu Stevenson em Vailima, Samoa, onde viveu seus últimos anos. Engraçado pensar que o blogue acabará uma série de posts sobre um escritor que escolheu morar numa ilha e começará uma outra, logo em seguida, sobre um cineasta que também amava o mar e ilhas.
Vivi numa ilha também, por apenas 2 anos de minha vida. E digo, há qualquer coisa de mágico sobre morar numa ilha. É como se estivéssemos todos confinados, e na realidade estamos, tendo que encontrar alguma solução para esse paradoxo que é conviver com outras pessoas ou com os próprios demônios, como foi o caso de Ingmar Bergman e quem sabe Saramago. Digo apenas uma coisa mezamis, eu também adoraria ir para uma ilha. Estar cercada de oceano.
E que tal uma representação pictórica das felizes narrativas de Stevenson, ainda que venham de outro continente? Quem sabe a arquitetura e a flora coloridas, tremulantes de Van Gogh. Lembrando estamos no pós-impressionismo. Porque tem sol, tem flor, tem verde e quase sufoca não é? Como se estivéssemos nos afogando em luz do sol. Dá uma vontade de correr para um abrigo, uma dessas casinhas para onde flui toda a vida…

Thatched Houses against a Hill, Vincent van Gogh, 1890, 50 x 100 cm, Tate Gallery, London, UK

Village Street and Stairs with Figures 1890, 49.8 x 70.1 cm (20 x 28 in); The Saint Louis Art Museum, Missouri

Irises, Van Gogh, 1889

Afterwords

Estamos na reta final da série #AllStevenson, faltam apenas dois posts, sobre O vestíbulo e O ladrão de cadáveres. E eu prometo, serão publicados. Mas… Pode acontecer de serem escritos durante a Mostra Ingmar Bergman que… Começa amanhã!!! A idéia é termos posts diários sobre a obra do autor sueco. Sempre seguindo a programação da Mostra no CCBB/SP para te ajudar na coisa toda.
Um beijo, um abraço e um aperto de mão.
Até amanhã.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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