A guerra entre os lugares e a escravização como instituição

A proximidade do local, e o calor do clima, somados ao número do navio, que estava tão lotado que cada um mal tinha espaço para se virar, quase nos sufocou … Essa situação miserável foi novamente agravada pela irritação do correntes, agora se tornam insuportáveis; e a sujeira das banheiras necessárias, nas quais as crianças muitas vezes caíam e quase sufocavam. Os gritos das mulheres e os gemidos dos moribundos tornavam o conjunto uma cena de horror quase inconcebível.

A interessante narrativa da vida de Olaudah Equiano, ou Gustavus Vassa, o africano.

1. Uma obra para não passar em branco

Responder se não foi o branco que escravizou o preto não se trata de um exercício sobre desmantelar a bravata de quem acredita ter proposto um desafio intelectual digno de nota. É sobre reafirmar quem são os responsáveis e beneficiários das atrocidades cometidas em toda a Diáspora em nome do sistema escravocrata como pensado após o século XV.

O Memorial às pessoas escravizadas do angolano Kiluanji Kia Henda é uma contudente resposta. Desafia, não apenas em Portugal, os herdeiros da barbárie. Plantação venceu inclusive uma proposta de Grada Quilomba em concurso promovido pela Djass- Associação de Afrodescendestes para marcar presença no espaço urbano lisboeta. Está em fase de construção.

Só de olhar a foto, quem já esteve em São Luís consegue ver Plantação instalada na Avenida Beira-Mar, sem qualquer prejuízo ao seu vocabulário. O que me faz querer colocar água nesse angu, que propõe uma nova urbanidade diaspórica.

É desonesto usar a figura do baiano Francisco Félix de Sousa (Salvador, 1754 — Uidá, Benim, 1849) para personalizar a discussão. Protegendo com uma cortina de fumaça a estratégia usada pelas potências escravocratas para encurralar as sociedades africanas desde que a primeira pessoas foi escravizada por Portugal.

Em contrapartida, o pensamento de Milton Santos (Brotas de Macaúbas, 1926 – São Paulo, 2001) nos ajuda a contextualizar o nascimento de um capitalismo de caráter imperialista, estruturalmente semelhante ao conceituado em A guerra entre os lugares. Que não deixaria espaço de manobra para a economia de sociedades locais.

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