Cultura & Sociedade

A história da porta: um mundo vitoriano, por Robert Louis Stevenson

By May 30, 2012 No Comments

O mês acabando e eu —ainda— não terminei a leitura de OMEOM. Na verdade, acabo de recomeçar. Provavelmente o que vai acontecer é o seguinte: o assunto vai render até meados do mês de junho, mais precisamente até o dia 13 quando começa a Mostra Ingmar Bergman no CCBB/SP.
A idéia é convidar blogueiros para falar aqui no blog sobre seu filme favorito, ou não, do diretor. O convite está feito. Basta enviar sua contribuição por email –> oneirophantaARROBAlivePONTOcom. participe, faça uma blogueira feliz =DDD

Agora, voltado à nossa programação habitual.

Nuossa, que título homérico. A história da porta é o primeiro capítulo de OMEOM. Ali são definidos os parâmetros de normalidade para toda a narrativa, como as coisas devem ou deveriam ser. Uma delas é a descrição da personalidade de Utterson, advogado, grande amigo de Jekyll Hide. Outro destaque é a apresentação do vinho, de um mundo estritamente masculino e da urbe vitoriana e a influência que o monstro e a especulação financeira exercem sobre ela. Ou seria o contrário? Vejamos.

Utterson, uma personalidade vitoriana

Antes de mais nada, Stevenson começa pela descrição de uma personalidade tipicamente vitoriana, Gabriel John Utterson. Ele é o guardião do testamento de Henry Jekyll e a ele caberá entregar toda a fortuna do amigo a Edward Hide se o médico desaparecer inexplicavelmente por mais de 3 meses. Utterson cumprirá sua tarefa ainda que desaprove a existência do infame testamento, não apenas como advogado, mas como amante dos aspectos sadios e convencionas da vida, para quem o extravagante era sinônimo de inadequado.
Nosso advogado adora vinho mas bebe rum, só para evitar o deleite. Veja, para Stevenson o vinho é pura poesia engarrafada. Utterson, por sua vez, é austero consigo mesmo, às vezes admirava-se, com uma ponta de inveja, da enorme influência que a bebida exercia nos maus atos das pessoas; em qualquer circunstância, era mais propenso a ajudar do que a reprovar. “Não condeno a heresia de Cain”, costumava dizer, de um jeito peculier, “deixo que meu irmão vá ao encontro do Diabo por conta própria”.
Mas será que ele deixará seu grande amigo se tornar o próprio Diabo?

Um mundo de homens: você já cruzou com seu protegé?

A pergunta feita por Utterson, citando Hide como protegido ou favorito de Jekyll, fez com que gente como Nabokov (russo, Lolita) sugerisse a idéia de uma relação amorosa entre o médico e o monstro, revelando uma rede de amizades pautadas por ligações homossexuais. Uma cogitação absurda? Digamos que não. O clube do suicídio, o livro, é repleto de reuniões tipicamente masculinas. São como os bailes de Flaubert só que frequentados exclusivamente por homens. Existe uma esfera de sedução, insinuações. Bem diferente do que acontece em O duplo de Dostoièvski com seu ambiente de galhofa, intrigas, risadas e fofocas.
Se você procurar no youtube vai encontrar uma adaptação de OMEOM feita em 1990, estrelando Michael Cane. Chama atenção a introdução de uma personagem feminina, Sarah. Como inventar uma esposa para Jekyll seria demais, criaram uma cunhada e armaram um climão entre os dois. Outras personagens femininas fazem parte dessa ambientação, aparecendo como esposas de distintos cavalheiros que vão a um baile ou prostitutas.
E daí que fico me perguntando. Já repaou que a mulher vitoriana sempre é uma distinta mulher ou uma prostituta. Onde será que estão as outras que transintam no intervalo entre uma existência e outra? Outra coisa, Sarah deixa a sensação de que se procura evitar, de caso pensado, o retrato de um mundo masculino como que é descrito na narativa original, o que certamente daria razão à especulações sobre práticas homossexuais.

 A Casa da Chantagem

Utterson realmente desconfia que por algum motivo, talvez um caso amoroso e indecoroso da juventude, Hide pratica chantagem com Jekyll. Tanto que nomeia o endereço do médico como A Casa da Chantagem. E cada vez que Stevenson dá um nome particular a uma residência, sempre lembro de A casa esplendorosa, com seus ambientes sem mobília, apenas com um lustroso assoalho de madeira, cortinas brancas nas janelas e flores nas sacadas.

Uma aldraba de castelo

A Casa da Chantagem é bem diferente.
Fica numa rua secundária, numa movimentada região de Londres, uma rua pequena e o que se pode chamar de tranquila, embora durante a semana abrigasse um florescente comércio. (…) A fachada das lojas tinha um ar bastante convidativo, como uma fileira de vendedoras sorridentes. (Olha onde estão as outras mulheres). Mas… Duas portas antes da esquina, no aldo esquerdo de quem segue na direção leste, essa fileira de lojas era interrompida pela entrada de um pátio, e bem nesse ponto uma sinistra construção avançava com seu frontão pela rua.
A porta, que não tinha nem campainha nem aldraba, tinha a pintura descascada e desbotada. Vagabundos esparramavam-se pelo recesso da entrada e riscavam fósforos nos painéis da porta; crianças vendiam quinquilharias nos degraus; um estudante testara sua faca no batente; por quase uma geração ninguém jamais aparecera para afugentar esses visitantes ocasionais ou para consertar estragos. (…) E além disso há uma chaminé. de onde geralmente sai fumaça, portanto alguém deve morar li.
A Casa da Chantagem seria bastante adequada ao monstro e no entanto, quem mora ali é Henry Jekyll. Esse fato demonstra muito bem a opinião de Nabokov sobre a personagem: o médico já tem dentro de si a centelha da maldade, o monstro serve apenas para dar a adequada vazão aos seus vícios. O monstro afinal, não é uma besta desvairada. Há episódios em que é bastante calculista e apegada à realidade em que se encontra. Ambos afetam a urbe que frequentam. Ou será o contrário?

No mais…Markheim

Eu ****adoraria*** ficar mais um mês em OMEOM. Mas preciso seguir em frente. Por isso esse é o último post sobre a narrativa. Os próximos posts serão sobre Markheim, O demônio da garrafa, O ladrão de cadáveres e O vestíbulo. Vou limitar a estória toda a um post para cada um. Ai, será que consigo?
Até o próximo post. Beijo.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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