Cultura & Sociedade

A passarinha ainda canta

By May 16, 2019 August 27th, 2019 One Comment

Na falta de tordos, come-se melros.

provérbio fongbe

É muito curioso como a banda toca. Não me surpreende. Sequer tenho sido capaz de me entristecer, porque afinal não é sobre mim. Mas como intelectual, tenho me deparado com encruzilhadas que ficaram para trás e nos trouxeram até aqui com projetos de mundo completamente diferentes. O que não é algo necessariamente ruim, afinal é para isso que a gente se move. O problema é quando tordos e melros se confundem, como se houvesse uma única oportunidade, uma única narrativa, um único canto.

Será que no final do dia não é tudo sobre as curtidas pergunto a mim mesma?

Sob o argumento de que somos os sonhos de nossos antepassados, muito tem sido feito. Acontece mezamis que a ancestralidade nem sempre é aquilo que desejamos. Ela não é apenas uma projeção, ela é o fazer de cada dia. Esse é o tipo de coisa que a gente escuta quando conversa com as mais velhas, quando por um breve momento conseguem parar entre um afazer e tantos outros. O tipo de coisa que a gente ingenuamente se espanta de saber que eles já sabiam antes que se tornasse uma moderna teoria sobre sucesso corporativo.

Será que no final do dia não é sobre quem está fazendo angu de papelão e com muita sorte, com pimenta e sal? Essa é a grande questão que se coloca. Nossos sonhos ainda são os mesmos? Onde ficam e como se organizam os quilombos da pós-modernidade? Responder não vai ser tão fácil. Não é sobre o mais novo avatar da violência. É sobre ficar de pé como dizia Seu Tenô, lá nos “quartéis” de Icatu.

De minha parte não tenho a consciência tranquila. Não por qualquer falha pessoal ainda que sejam muitas. Mas por todas as vezes em que flertei intelectualmente por despreparo, omissão ou vaidade com projetos alheios à tudo aquilo que me motivou lá atrás. Por outro lado, que nunca nos esqueçamos que não é sobre a gente, não pode ser e não é. Assim vamos diretamente às perguntas urgentes.

No final do dia não é tudo sobre os sorrisos trocados nos espaços de poder, Raquel Almeida?


Ontem, quando muitas se movimentaram para parar a cidade em defesa da educação, estava eu sentada na sala de estar de um consultório médico. Aproveitei para folhear uma dessas importantes revistas femininas com nome francês. Um dos assuntos eram os “aerolooks”. Achei mágico de tão trágico. Pensei nas inúmeras fotos de tantas mulheres negras viajando (alô, alô, graças a deus) e fiquei pensando o que cada uma delas pensaria sobre isso. Afinal, subiu no avião, tem de resolver a parada.

Com que roupa? Com que camuflagem?

Por outro lado ainda reina uma grande máxima, aquela que faz com que as frutas não caiam muito longe do pé de gente ou de mato. O que nos oferece a grande oportunidade de pelo menos entender um pouquinho aquilo que muitos dizem e nem sempre tem reflexo nas muitas práticas feministas – nossos passos vem de longe. Não é de hoje que a gente precisa resolver como sobe num avião, não é Larissa Santiago?


E se a gente tá na lida há gerações, eles também. Não se esqueçam.

E se tem uma coisa que esse povo sabe fazer é dar novos significados a qualquer coisa.

Não se sintam inteligentes demais diante do alheio.

Não acreditem nas vitórias que até podem ter sido lutadas, mas foram apenas concedidas.

Porque é justamente nessa hora em que a banda toca e no final todos dançam.

Não foi assim com o punk?


E daí que a gente pensa nos novos e antigos itans sobre não haver uma única história. E como temos nos esforçado demais para que uma única narrativa seja válida. Por mim tudo bem, se é pra ser “cada um, cada um” que seja “cada um, cada qual ”. E daí não há curtida que resolva. Porque a gente sabe o que elas significam e de onde nascem, como funcionam. No final do dia mezamis é sobre mais um texto não lido e todas as galantearias trocadas e esquecidas logo em seguida, como bem sabia o rei.

E se por ventura eu não estiver aqui amanhã, digo agora sabemos sobre todas as coisas que a gente só quebra de dentro.

Mas que estamos falando sobre todas as outras que a gente só enxerga e destrói do lado de fora.

Digam que só termina quando acaba e a passarinha não está morta.

Ela ainda canta.

Charô Nunes

Eu escrevo.

One Comment

Leave a Reply