Arte

Arquitetura, música e janelas

By August 13, 2012 No Comments

Aos 12 anos passei a cruzar a cidade para estudar. Ai não prestou. Matava aula regularmente para ir à Biblioteca Municipal na Xavier de Toledo por causa da secção de obras raras. Ou ainda andar de metrô, percorrendo repetidas vezes os trechos de superfície enquanto recebia uma nesga de sol. Passados mais de 20 anos, até hoje sou fascinada por um ventinho, um pedacinho de sol ou de jardim através de uma janela.
Quando me sentia entediada de tanto metrô ou de olhar o relógio do Diário Oficial pelas janelas da Mário de Andrade, visitava o Centro Cultural Vergueiro, espaço único em São Paulo. Elaborado maliciosamente aos moldes do Centro Georges Pompidou, sua vocação para centro de cultura se tornou urgente. E lá se foram exatos 30 anos. Para comemorar o edifício passa por extensas reformas. Nada que descaracterize o projeto dos arquitetos Eurico Prado Lopes e Luiz Telles espero.
Aqui chegamos ao ponto de interesse desse post, o projeto de arquitetura do Centro que sempre me foi uma contradição: como aconchegante se brutalista, como brutalista se ac0nchegante? Nunca apreendi sua totalidade. Mesmo agora tenho a impressão de que estou diante de um iceberg vendo ínfima parte do todo. Invadida pelo concreto, desenhada em aço, perdida por entre caminhos. Felizmente existe ali uma das maiores discotecas da América Latina: quando tudo dava errado (coisa muito comum na adolescência) ia para lá, escolhia algum LP e ficava olhando pela janela.
Foi ali que ouvi pela primeira vez bandas como The Doors e Deep Purple. Escutar Moonlight Drive foi meu primeiro contato consciente com o êxtase sublime. Não com a ideia, mas com a emoção de estar numa obra de arte. Arquitetura e música de mãos dadas, acho que era esse o segredo. E quem sabe um pouco de juventude também, ingenuidade talvez, descompromisso certamente. E um pouco de mal estar de viver tão longe de tudo aquilo, lá longe no rabo da cidade.
A música dos Doors fazia com que aquele espaço (e muitos outros) se tornasse mais acolhedor. Já o riff de Smoke on Water evidenciava toda a crueldade (vamos colocar nesses termos) daquela arquitetura brutalista, da vida. Não como um emaranhado de possibilidades, mas como caminhos entrelaçados numa trajetória perdida. Talvez como uma metáfora para a década anterior, uma rua sem saída como defendem erradamente os historiadores chatos.
Agora os tempos são outros. Há anos não frequento a minha discoteca preferida. Tudo está ao alcance de um clique. E foi num desses cliques que descobri que John Lord, um dos criadores de Smoke on Water, morreu. Morreu como aquela adolescente cheia de certezas que um dia eu fui também morreu. A internet ficou repleta de imagens de um velhinho nada simpático entregue aos teclados. A lenda viva agora jaz. E penso como o Centro Cultural Vergueiro é feio de um jeito bonito, entende?

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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