Arte

O artista jovem precisa vender bem?

By January 10, 2013 No Comments

Ou ainda, arte boa  sempre custa caro? Obviamente a resposta é não. O grande barato de ser uma artista jovem hoje é entender que o fazer artístico não precisa estar atrelado ao mercado de arte para ser bem sucedido. Entretanto, essa não é uma constação tão óbvia num mundo em que as obras facilmente alcançam a casa dos milhões de dólares e se tornam célebres justamente por isso.

Retrospectiva e perspectiva pessoais

Desde 2006 tenho me perguntado qual o caminho a seguir quando se é um artista jovem. Depois que saí da faculdade, deprimida com o horizonte funesto do exercício profissional da arquitetura e do (des)urbanismo, percebi que minha única alternativa era a arte. Talvez a maneira menos inadequada e dolorida de estar no mundo. Mas nunca tive certezas sobre o que é ser um artista jovem.
No início da minha trajetória como artista, minhas inquietações se concentravam em saber se produzia arte. Arte de verdade. Não sabia se minhas inquietações tinham algum valor artístico e mercadológico. Esse sentimento, aliado a uma insegurança de elefante, à pouca experiência em tornar ideias coisas reais e ao desconhecimento do mercado de arte fizeram com que ficasse cada vez mais perdida dentro de mim, como pessoa e como artista jovem.
Naqueles dias, as ideias simplesmente tomavam conta de mim, sem que soubesse como e porquê. Dois tipos de vontades imperiosas surgiram nessa época. A primeira delas eram os Dez Designz – 10 projetos de design do objeto, que hoje entendo como desconstrução de certezas cotidianas como o Descabide (um cabide que não pode ser usado para pendurar roupas) e a Desmame (uma mamadeira que não consegue reter qualquer líquido).
Outras necessidades mais subjetivas também se impunham como as esculturas sem pé nem cabeça. Sentia a necessidade de fazer coisas com papel – cortar, colecionar, emplihar. Até aqui tudo bem, eu dava conta. Outra ideia foi o Cubo, também nessa vibe – uma assemblage de um milhão de pequenos cubos de acrílico. Só que daí você multiplica cada peça por 10 centavos…

Entrar no mercado sem ser capitalista?

Nessa época pensava que o melhor caminho era abrir uma empresa para possibilitar a criarção e comercialização das obras. Não levei a ideia à cabo porque, como afirma Peter Dogget sobre os Beatles, me vi em frente à “grandes verdades: você não pode se envolver em negócios sem se tornar um negociante; você não pode entrar no mercado sem se tornar um capitalista; você não pode supor que, só porque você tem ideais fortes, o resto do mundo vai dividi-los com você”.
Ora, sou uma artista jovem e não uma capitalista. Porém, é inegável que atividade artística está intrinsecamente ligada à atividade capitalista. Na Idade Média são lançadas as bases dessas relação. No Renascimento, figuras como Peter Rubens são um excelente estudo de caso sobre como gerenciar uma carreira e um atelier de sucesso. Até hoje a Casa Rubenshuis, a vila de estilo italiano onde o holandês morava e concentrava seu estúdio e escritório (foi diplomata), é um programa obrigatório para qualquer artista que visita a Antuérpia.
Por outro lado, hoje que há 72 números entre o 8 e o 80. Van Gogh não deixou de ser um gande artista apesar de não ter tido talento algum para os negócios. E se até aqui priorizamos os casos de sucesso, a polêmica em torno dos bonecos de ação das personagens de Django – novo filme (bom) de Tarantino sobre a América escravocrata do século XIX – torna palpáveis os limites sobre o modo como consumimos arte.
Afinal, o que dizer sobre a venda de uma boneca (bonecos de ação são bonecas “de menino”) que é um escravo? Poderíamos colocar as coisas de outra maneira, questionando se a venda de bonecas do tipo barbie é negócio ou é arte. Nem preciso dizer que uma boneca negra vendida como escrava, além de evidenciar os limites da liberdade de expressão, deixa bem claro que até mesmo as transações comerciais tem limites emrcadológicos muito claros.

A obra de arte só tem sentido se em interação com a coletividade

E com a arte não é diferente. Mas se pudesse aconselhar um artista jovem, diria que não se trata de vender ou não a obra de arte. A grande questão é entender que uma obra só ganha sentido se estiver em interação com a coletividade. Trata-se não de ser apenas um artista jovem mas de aprender a apresentar aquilo que vai no peito para o interlocutor que se quer atingir, saber onde se quer chegar.
Pessoalmente, hoje não tenho o menor interesse em me tornar uma artista de sucesso comercial. Afinal nem sempre vender bem significa chegar lá. Minha vontade é ter obras em espaços públicos, nas avenida, nos parques, acessível para quem não tem grana para comprar 1 milhão de cubos a 10 centavos de real cada. Essa talvez seja a grande lição que o grafite e sobretudo o pixo, o mais importante movimento de vanguarda brasileira desde o Semana de Arte de 22.

Os bons linques do dia

Estou me segurando para não comprar o Peter Dogget sobre os Beatles, uma das minhas bandas prediletas. Outro linque bom do dia é a polêmica (legítima) sobre a venda das bonecas de ação do novo filme bom de Tarantino que estou morrendo de vontade de ver. E não deixe de conhecer um pouco mais sobre a vida e a obra de Peter Paul Rubens na wikipédia.
Ah sim, a imagem que ilustra esse post é so Street Art Utopia.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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