ArteSó o creme

Esquenta da Mostra: Os assassinos de Andrei Tarkovsky

By October 13, 2012 No Comments

I can’t stand to think about him waiting in the room and knowing he’s going to get it. It’s too damned awful.

Os assassinos foi filmado apenas 3 anos após o fim da era Stalinista. Vigora a Guerra Fria e o novo governante da União Soviética é Nikita Khrushchev, empenhado na denúncia das arbitrariedades de seu antecessor. Ficou conhecido por discordar da tese de que capitalismo e comunismo não poderiam coexistir iniciando a política de Coexistência Pacífica, um período de abrandamento das tensões entre as grandes potências. Durante seu governo Yuri Gagarin se torna o primeiro homem no espaço, após o lançamento da Sputnik.
O cinema dos estudantes russos do Instituto Gerasimov de Cinema, onde ensinou gente como Eisenstein (Encouraçado Potemkin, 1925)  também vivencia ambiguidades. Os estudantes Andrei Tarkovsky, Marika Beiku e Aleksandr Gordon conseguem permissão para adaptar um texto de Ernest Hemingway cuja antologia fora recentemente publicada no país. Essa foi a primeira vez que estudantes tiveram a permissão de usar um autor estrangeiro.
A estória é dividida em três partes e se passa num bar, no comecinho da noite. Proprietário, um funcionário e um cliente são feitos reféns de dois jovens assassinos de aluguel que pretendem matar um terceiro cliente. É um filme noir sem a mulher fatal mas com figurinos impecáveis. Os assassinos usam pesados sobretudo, chapéu e as clássicas luvas de couro, mostrando o cuidado com a produção. Já a atuação dos atores deixa um pouquinho e desejar, um detalhe que não compromete o todo.
A primeira impressão que tive foi de estar diante de um antepassado direto de Tarantino e Guy Ritchie não apenas pelo mote, assassinos de aluguel, mas pela linguagem utilizada e o suspense. Mais ainda, tive um insight com alguns curtinhas de Fassbinder por conta do jogo de espelhos e ângulos. Preciso confessar que a fotografia não é lá grandes coisas mas tem seus momentos: closes extremos, o cãmera junto ao chão mostrando uma cadeira e uma garrafa derrubada e as tomadas frontais das personagens.
Mas é claro que a grande vedete aqui é o texto pessimista e cruel de Hemingway que, filmado naquele contexto, serve como uma profecia maldita acerca do fim da própriaUnião Soviética apesar de falar de uma Chicago pulp fiction da década de 20. Apesar de o final ser previsível, não deixa de ser surpreendente: a vida é como a vida é e não há nada que você possa fazer para escapar. Lembra muito o estilão de O Grande Hotel (com Tim Roth) onde a vida simplesmente continua. Cabe aqui citar um antepassado longínquo, O homem com uma câmera (Vertov) por seu foco urbano.
O saldo? O filme não é um clássico porém não deve ser menosprezado por quem é fã ou, como eu, vai conhecer o cinema de Andrei Tarkovsky na Mostra de Cinema. Felizmente e talvez por uma exigência curricular, o filme tem cerca de 20 minutos, o que considero ideal. Mais que isso se tornaria quase monótono. A parte ruim da estória é que não podemos dizer ainda quando e onde será exibido posto que a programação da mostra ainda (ainda!) não está disponível para o público.
Quem não se guenta de curiosidade, quer (re)ver ou não vai à mostra, pode conferir Os Assassinos no youtube.
E bom filme!

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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