Photo by Alex Powell from Pexels
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Cada um com seu cada qual

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“Cada um com seu cada qual”, diz minha mãe. Uma máxima que a boa e velha educação afrobrasileira, aprendida em casa e nos terreiros, nos ensina a respeitar em toda sua minúcia. Tem a ver com a gente saber o que é nosso, o que é do outro, sem deixar espaço para que apareça um boi na linha ou um bode no meio da sala. E justamente por isso, começo por circunscrever sobre o que estou falando e a partir de qual experiência.

Não escrevo como filha de santo, mas como uma pensadora interessada em observar e refletir sobre a sociedade em que vive. E que hoje quer lançar alguns vinténs sobre um fenômeno que une tanto a direita como a esquerda brasileiras, bem como aqueles que os antecederam: essa estranha mania de tratar as demais existências como disponíveis. E aqui está o detalhe, onde dizem morar o diabo, porque a a reação não tarda: insistimos em retomar aquilo que é nosso.

Meu convite é para que pensemos juntas o uso da palavra Ancestralidade fora das casas de santo, por pessoas que não são do santo e sequer pisaram num terreiro. Tenho em mente uma prática descuidada, que não se dá nos espaços sagrados, mas tem começado a ganhar espaço em narrativas ativistas de pessoas não negras.

Nessa hora a gente lembra imediatamente de um dos textos mais potentes já publicados pelo Blogueiras Negras, Tirem suas mãos de nossos símbolos de luta. Se você me permite cara Eliane Oliveira, gostaria de fazer minhas suas palavras, por que não encontro jeito melhor de dizer: “me causa certo incomodo ao ver pessoas ostentando os grandes símbolos da resistência negra apenas como forma de se legitimar dentro de um grupo político.”

Mais ainda quando o objetivo é florear politicamente suas narrativas e ações, por meio de uma metodologia racista e irresponsável. Mas, se chegamos até aqui e ninguém está de brincadeira, que tal “cada um com seu cada qual” camará? A gente sabe, no final do dia ninguém que falar sobre ancestralidade branca. Porque também tem viu. Ô se tem. E não tem a ver com genes.

Até onde pude avaliar, não estou só nesse incômodo.

Ancestralidade como conceito e prática tem origens abissais e atlânticas. Não é sobre material genético ou uma menção simplória. Ao invés disso, trata inclusive de implicações espirituais passíveis de serem apreendidas apenas com o passar dos anos, apenas por aqueles que se tornaram os mais velhos nos âmbitos mais sagrados da cultura brasileira. Portanto, aqueles que são os únicos capazes de falar com propriedade sobre, com a reverência que merece.

De qualquer modo, mesmo que sejamos incapazes de abarcar a ideia de Ancestralidade no modo de fazer, pensar e comunicar, por nossa pouca idade, irreverência ou ignorância… Nada nos impede de ao menos inferir que toda e qualquer palavra não é um conjunto de letrinhas combinadas magicamente, que pode ser aplicada sem contexto. Há pessoas e existências que fizeram cada uma delas chegar até aqui e serem usadas dessa ou daquela maneira. Inclusive no campo da atuação política.

E esse é onde a porca torce o rabo, porque passamos a falar de uma Política da Ancestralidade, que irmana os povos de santo aos povos negros, a partir de perspectivas da negritude ou africanidade. Mas sempre a partir de um olhar que remonta uma origem e territórios comuns, de modo que todo e qualquer movimento alheio a esses universo se torna evidente como nada mais que uma excrescência do vazio.

Kiusam Regina de Oliveira escreveu um texto profundamente educativo sobre a Pedagogia da Ancestralidade, advogando sobre seus “campos de potência”, à saber: “Ancestralidade, Corporeidade, Imaginário, Subjetividade, Oralidade, Identidades, Memória, Processos Educativos e Ancestralidade.” E estabelece seus princípios: “1) na consciência de que existe a colonialidade no e do poder; 2) na necessidade da emancipação epistêmica; 3) na luta por uma educação antirracista; 4) no entendimento da importância da formação para a educação das relações étnico-raciais.”.

Ou seja, como falar de Ancestralidade sem respeitar seus “campos de potência e princípios”, este é o meu ponto. Destaco principalmente a consciência de que existe a colonialidade no e do porder, através da qual compreeendemos a necessidade de emancipação epistêmica na luta por uma educação antirracista, preocupada com a educação das relações étnico-raciais.

Afinal, qual o sentido de se empregar a palavra Ancestralidade se a mensagem estiver imbuída tanto em sua teoria e prática de uma perspectiva predatória e colonial?

Referências

OLIVEIRA, Kiusam Regina de. Pedagogia da Ancestralidade. E online, 2019. Disponível em: <https://www.sescsp.org.br/online/artigo/13431_PEDAGOGIA+DA+ANCESTRALIDADE>. Acesso em: 20 de fevereiro de 2020.


Photo by Alex Powell from Pexels