Uma política da imagem: Candyman (2021)

Nós vivemos a era das imagens. As pessoas não leem mais o que está escrito na legenda. Com alguma sorte param um tempinho para ler fotos e ver vídeos. Isso não é essencialmente ruim porém levanta questões quanto a relação entre os símbolos imagéticos de nosso tempo e sua relação com a realidade.

Esse sinal dos tempos é tão importante que acaba de surgir uma nova métrica no mundo da internet, o “tempo de atenção”, que vai medir se as pessoas estão concentradas no que estão vendo ou lendo. Afinal, você possivelmente não vai ler uma legendona que acompanha a foto maravilhosa compartilhada por sua melhor amiga.

O mesmo acontece com as imagens que evidenciam que não existe mais, se é que um dia existiu, qualquer fronteira entre o que mostram as telas dos celulares e a realidade nua e crua. Quero aqui falar especificamente dos vídeos que denunciaram os assassinatos de George Floyd, Moïse Mugenyi Kabagambe e Genivaldo de Jesus Santos.

Imagens cuja produção e consumo nos obrigam a pensar em como estão mudando a sociedade que as produzem. E aqui não consigo deixar de enxergar uma perigosa dualidade. Ao mesmo tempo que servem para denunciar esses crimes e a violência contra nossos corpos, também alimentam o ódio, banalizam o mal.

Um episódio de Além da imaginação, com Jordan Peele.

Imagens que tem se tornado uma poderosa mensagem: esta será a resposta à qualquer ousadia, tentativa de mobilidade social ou política. Nós podemos matar à luz do dia e a qualquer momento, mesmo com alguém filmando. É como voltar aos tempos de cativeiro, em que éramos açoitados em praça pública para que a gente permanecessem no nosso lugar se quisermos viver.

Imagens que ganham ainda mais importância agora que estamos há quatro meses das eleições. Um pleito que será marcado por uma extrema vulnerabilidade democrática, desinformação e desvalorização da ciência, a propagação da ideia de polarização enquanto são anuviadas as fronteiras entre os campos de pensamento e ação entre esquerda e direita, numa sociedade cada vez mais armada.

E se não temos tempo nas redes sociais.

Eu toda no cinema =))))

Possivelmente vamos prestar mais atenção em um filme que pagamos caro para ver.

O que nos faz olhar com olhos interessados para O homem que caiu na terra e agora a sequência de Candyman (1992), que entendo como a expressão de um antirracismo liberal a exemplo da denúncia do racismo liberal que vemos em Corra, ainda assim, antirracismo. Afinal, porque nossos primos do lado de cá e de cima do planeta estão empenhados em pensar essas imagens e sua autoria negra? E o que isso diz para nós, abaixo da linha do Equador?

Sem nenhuma novidade e qualquer criatividade em sua crítica grande parte da audiência branca acusou a obra de ser militante demais, de ser negra demais. Como sempre em torno da ideia de que cinema deveria ser apenas entretenimento. Qualquer coisa além disso estragaria a festa. E para alguns estragou mesmo. Rá!!!

Ora, são apenas imagens de cinema, dirão.

As pessoas têm problemas mais complexos como a fome que hoje coloca em risco a vida de 33 milhões de pessoas no Brasil.

Atenção.

Estamos falando de algo muito mais importante do que parece – a produção de imagens é um dos braços mais importantes do extermínio da população negra nas diásporas africanas. Um aspecto extremamente político com rebatimento inclusive na disputa de poder nos parlamentos, por exemplo. Porque eles nos matam de fome por comida, mas também de fome por imagens.

Candyman 2021

Não nos esqueçamos o esforço que foi envolvido pelo nazismo para criar filmes que prepararam o horror do holocausto, integrando um complexo sistema de propaganda.

As palavras do pesquisador Gerd Albrecht sobre um dos primeiros objetivos da máquina de cinema nazista evidencia o caráter político dos comentários nada inocentes que realizações negras têm recebido internet afora. Em tradução livre, “O primeiro e mais importante objetivo dos filmes nazistas era entreter. Foram pensados para serem escapistas e oferecer conforto face às dificuldades do dia a dia. Quanto mais esses filmes fossem alienados da realidade, melhor funcionariam nos termos do nazismo.”.

Candyman 2021

Mas o que Candyman tem a ver com isso? Não quero aqui oferecer qualquer pista sobre o desenrolar do roteiro, tem um bando de gente fazendo isso. Me interessa entender como a dupla Nia DaCosta e Jordan Peele vão na direção oposta nos fazendo pensar e expressaram imageticamente uma visão criativa e autoral negra, portanto política. É simples, nós também sabemos fazer propaganda. E ela é extremamente importante na disputa e sobrevivência de mentes e corações.

Já falei sobre o filme anterior. Mas a cena de abertura sintetiza muito bem o olhar de um homem branco que sobrevoa um bairro negro, seu maior pesadelo urbano, sem colocar seus pés nesse território. Em sua forma, a abertura de 1992 é muito bonita, mas um desastre se pensarmos em seu significado. Somos retratados por alguém que os olha do lado de fora, como se estivéssemos em um zoológico.

Candyman 1992

Em 2021, com a sequência de Candyman, a internet se concentrou em um fato – os títulos estavam ao contrário. Teve gente que pensou que se tratava de um erro da produção, minha gente.

Mas alguns foram mais longe:

A abertura de Candyman com títulos reversos estabelece um ponto de metalinguagem sobre como Candyman, assim como todas as artes, é como um espelho. Reflexos não são reais no sentido físico e material. São ilusões fictícias de uma realidade que, apesar de idêntica à realidade, não carregam qualquer substância por si. A arte, especialmente as visuais como um filme, operam da mesma forma: revelam o mundo para ele mesmo. São as quatro paredes do filme quebrando a mecânica de como Candyman se aproxima da crítica social sobre questões de raça e classe, com as quais confronta diretamente a audiência. Candyman é um filme de confronto, forçando o público a enfrentar uma versão distorcida de si mesma, assim como os espelhos distorcidos de uma casa de diversão carnavalesca.”, disse Ryan Simon no Screenrant.

Candyman 2021

Achei maromenos a mesma coisa, só que um pouco diferente. Nia DaCosta e Jordan Peele estão do lado de dentro do espelho, o que pode significar coisas distintas. Em primeiro lugar, estão em uma posição de cada vez mais poder na indústria. O que materializa sua autoria e o confronto que ela implica. Se você já publicou um trabalho autoral, sabe o que essa ousadia significa. A criatividade nos é interditada.

Agora, se é dentro desse espelho que a personagem principal mora, a diretora e o produtor estão ao seu lado. Também moram lá. e por isso incorporam a personagem. E revivem a própria experiência de Candyman, George Floyd, Moïse Mugenyi Kabagambe e Genivaldo de Jesus Santos. A de todos nós.

Candyman 2021

Referências

German Expert on Nazi Films and Propaganda. DW. Publicado em 12 de agosto de 2007. Disponível em <https://www.dw.com/en/german-expert-on-nazi-films-and-propaganda/a-2728383>. Acessado em 05 de junho de 2022.

SIMON, Ryan. Why Candyman’s Opening Titles Are Mirrored. Disponível em <https://screenrant.com/candyman-2021-movie-opening-credits-mirrored-reason/>. Screenrant, Publicado em 28 de agosto de 2021. Acessado em 05 de junho de 2022.

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O projeto nasceu da necessidade de falar sobre a dificuldade enfrentada pela população negra em ter acesso a uma educação de qualidade. Partindo da minha própria experiência, em escolas particulares sendo quase sempre uma das únicas estudantes negras, onde alunos, professores e coordenadores tinham pouca sensibilidade para lidar com diversidade.