Os diários selecionados das Memórias do Câncer

Preciso me lembrar da alegria, da leveza, do riso tão vitais para minha vida e minha saúde. Caso contrário, o outro sempre estará esperando para me devorar até o desespero novamente. E isso significa destruição. Não sei como, mas é. AUDRE LORDE

Dessa vez escolhi alguns trechos de Memórias do Câncer, especificamente do capítulo dois. Elas não são um texto corrido, mas observações qeu Audre Lorde fez seis meses depois de sua mastectomia e que “exemplificam o processo de integrar a crise em sua vida“. Para nosso uso e reflexão.

1 de março de 1979

It is such an effort to find decent food in this place, not to just give up and eat the old poison.

É um grande esforço encontrar comida decente neste lugar, não apenas desistir e comer o veneno antigo.

(…)

Is this pain and despair that surround me a result of cancer, or has it just been released by cancer?

Esta dor e desespero que me cercam são resultado do câncer ou foram apenas liberados pelo câncer?

16 de abril de 1979

The enormity of our task, to turn the world around. It feels like turning my life around, inside out. If I can look directly at my life and my death without flinching I know there is nothing they can ever do to me again. I must be content to see how really little I can do and still do it with an open heart. Ican never accept this, like I can’t accept that turning my life around is so hard, eating differently, sleeping differently, moving differently , being differently. Like Martha said, I want the old me, bad as before.

A enormidade da nossa tarefa, mudar o mundo. É como virar a minha vida do avesso. Se eu puder olhar diretamente para minha vida e minha morte sem hesitar, sei que não há nada que eles possam fazer comigo novamente. Devo me contentar em ver o quão pouco posso fazer e ainda assim fazer com o coração aberto. Eu nunca posso aceitar isso, como eu não posso aceitar que é tão difícil mudar minha vida, comer de forma diferente, dormir de forma diferente, mover-se de forma diferente, ser diferente. Como Martha disse, eu quero meu velho eu, tão ruim quanto era antes.

1 de junho de 1979

I need to remind myself of the joy, the lightness, the laughter so vital to my living and my health. Otherwise, the other will always be waiting to eat me up into despair again. And that means destruction. I don’t know how, but it does.

Preciso me lembrar da alegria, da leveza, do riso tão vitais para minha vida e minha saúde. Caso contrário, o outro sempre estará esperando para me devorar até o desespero novamente. E isso significa destruição. Não sei como, mas é.

Setembro de 1979

The arrogant blindness of comfortable white women. What is this work all for? What does it matter whether I ever speak again or not? I try. The blood of black women sloshes from coast to coast and Daly says race is of no concern to women. So that means we are either immortal or born to die and no note taken, un-women.

A cegueira arrogante das confortáveis mulheres brancas. Para que serve todo esse trabalho? O que importa se eu falo novamente ou não? Eu tento. O sangue das mulheres negras se espalha de costa a costa e Daly diz que raça não interessa às mulheres. Então isso significa que ou somos imortais ou nascemos para morrer e não recebemos nenhuma nota, somos não mulheres.

3 de outubro de 1979

I don’t feel like being strong, but do I have a choice? It hurts when even my sisters look at me in the street with cold and silent eyes. I am defined as other in every group I’m a part of. The outsider, both strength and weakness. Yet without community there is certainly no liberation, no future, only the most vulnerable and temporary armistice between me and my oppression.

Não me sinto forte, mas tenho escolha? Dói quando até minhas irmãs me olham na rua com olhos frios e silenciosos. Sou definida como o outro em cada grupo do qual faço parte. O estranho, ao mesmo tempo forte e fraco. No entanto, sem comunidade certamente não há libertação, nem futuro, apenas o armistício mais vulnerável e temporário entre mim e minha opressão.

19 de novembro de 1979

I am not supposed to exist. I carry death around in my body like a condemnation. But I do live. The bee flies. There must be some way to integrate death into living, neither ignoring it nor giving in to it.

Eu não deveria existir. Eu carrego a morte em meu corpo como uma condenação. Mas eu vivo. A abelha voa. Deve haver alguma maneira de integrar a morte à vida, sem ignorá-la nem ceder a ela.

18 de fevereiro de 1980

I am 46 years living today and very pleased to be alive, very glad and very happy. Fear and pain and despair do not disappear. They only become slowly less and less important. Although sometimes I still long for a simple orderly life with a hunger sharp as that sudden vegetarian hunger for meat.

Estou com 46 anos vivendo hoje e muito feliz por estar viva, muito contente e muito feliz. O medo, a dor e o desespero não desaparecem. Eles apenas se tornam cada vez menos importantes. Embora às vezes eu ainda anseie por uma vida simples e ordeira com uma fome vegetariana aguda e súbita por carne.

20 de junho de 1980

I do not forget cancer for very long, ever. (…) I live with the constant fear of recurrence of another cancer.

Não me esqueço do câncer por muito tempo, nunca. (…) Eu convivo com o medo constante da recorrência de outro câncer.

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