Cultura & Sociedade

É da nossa conta: no dia das crianças, Record apresenta quadro questionável

By October 12, 2012 One Comment

A minha televisão tem a estranha mania de ficar ligada. Para minha sorte (ou azar) não assino canais à cabo. Por causa disso vejo as coisas mais estranhas que você pode imaginar. Ontem vi um pedaço do Show da fé (sou atéia), hoje pela manhã um quadro chamado Reis do Bailinho num programa da Rede Record chamado Hoje em Dia, conduzido pelos apresentadores Cris Flores, Edu Guedes e Celso Zucatelli.
O quadro é na verdade uma competição para ver quais crianças sambam melhor.
Jusqu’ici tout va bien, o problema começa com

  1. a difusão televisiva da experiência
  2. o provável não pagamento de cachê justo (mesmo aqui há controvérsias) e a premiação irisória (um video game) se pensarmos na audiência que o grupo de crianças pode ter proporcionado.
  3. o tratamento completamente irresponsável dispensado às crianças.

O fato de televisionar o concurso faz com que a competição perca o status de brincadeira. Torna-se na verdade mais uma atração cujo fim primeiro é a audiência e não o bem estar dos participantes, configurando portanto trabalho infantil . O fato de receberem um vale brinquedo no valor de R$ 200,00 também demonstra que se trata de uma relação de trabalho, situação que é legalmente escamoteada pelo fato de atração ser chamada de concurso.
Na realidade essas crianças se transformaram em mão de obra artística barata, sem receber cachê adequado (mesmo que tivessem sido pagos de forma adequada, isso não justiticaria o trabalho infantil) e se degladiando por um prêmio ridículo comparado à audiência conquistada. Certamente os 200 reais não são suficientes para pagar pelo menos o figurino dos participantes fazendo que na prática os pais tenham pago para que seus filhos se apresentassem na televisão, eldorado imagético num mundo em que o trabalho infantil nem sempre é reconhecido como tal.
Mas como tudo que é ruim pode piorar, também é questionável a interação com os astros infantins. Ficou evidente o cacuete jornalístico da apresentadora Cris Flores, conhecida por falar de celebridades, que indagava sobre a vida amorosa (muitas aspas) dos participantes ao invés de seu desempenho na escola, por exemplo. Houve momentos em que Cris Flores chegoua constranger os pequenos insistindo no assunto mesmo ouvindo das crianças que não tinham namoradas e namorados. E veja, havia crianças realmente pequenas (com cerca de 8 anos).
Completamente questionável. Tão quanto o convite da personagem Julio (Cocoricò) para que as crianças assistissem à sua participação no programa Agora é Tarde cuja classificação etária é de 14 anos se não estou enganada. Trabalho infantil, e por consequência sua exploração, são questões complexas que não se restringem a vender balas, mendicar no trânsito ou fazer trabalhos domésticos. Precisamos treinar nosso olhar para reconhecer todas as suas facetas, mesmo que seja na televisão, no cinema ou nas revistas infantis.
O site promenino exorta sobre o que devemos fazer para mudar esse panorama:

Diferentes instituições estão diretamente envolvidas na fiscalização e no combate ao trabalho infantil. Você pode comunicar uma situação de exploração, por exemplo, ao Conselho Tutelar de sua cidade, ao Ministério Público ou a um Juiz de Infância. Ainda é possível denunciar pelo telefone do Disque 100 – Disque Denúncia Nacional ou pelo site www.disque100.gov.br

Lembrando que esse post faz parte da iniciativa Pró-Menino que organiza no dia 16/10 uma blogagem coletiva sobre o tema.
http://www.promenino.org.br/
http://www.facebook.com/redepromenino
http://twitter.com/promenino

E um feliz dia das crianças.
Sem consumismo e sem trabalho infantil.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

One Comment

  • Oi, é muito bom esse teu post, estou divulgando para que mais pessoas leiam e comentem!
    Essa “incrível” apresentadora e jornalista de formação – fico pensando se isso realmente é necessário, para realizar esse tipo de intervenção – tem um livro escrito sobre filhos, podes crer nisso?
    Tem horas em que penso se diante dessa exibição e promoção toda de pequenas misses, de shows de talentos, não há um bando de adultos inconformados com a vida que levam e que, ao invés de deixarem as crianças experimentarem outras possibilidades, através de oficinas de teatro, música, dança, esportes em que o objetivo não seja competir. Porque na verdade estão dando às crianças a responsabilidade de levar dinheiro, satisfação aos pais e também a indicação de que mudar de rumo, de repensar escolhas está fora de cogitação…
    Meus filhos vivem sendo chamados para testes para modelo, mas eu recuso. Agora é hora de brincar, de estudar, de descansar, de testar novas invenções… Se esse for o seu jeito, se desejarem fazer essa escolha mais tarde, certamente orientarei e apoiarei. Sei bem o tipo de crueldade que fazem com as crianças em castings, detonando a autoestima de quem acha que está ali para brincar e deixar os pais felizes. Dizer que uma criança “não serve” porque está muito alta, ou que só apareça quando emagrecer, ou que está naquela idade em que precisa começar a ter peitos, ou que regrida e fique com cara de bebê é o mínimo que elas ouvem.
    Fora todo o resto, mas quero deixar espaço para que outras pessoas possam comentar também, e não fazer outro post, kkkk!
    Abraço,
    Ingrid

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