ArteSó o creme

Em tempos de BBB

By January 12, 2012 No Comments

Gosto de analisar a produção de senso comum, compreender como ele se entrelaça ao campo científico que o alimenta e, ao mesmo tempo, o humilha. Assim, me interesso por tudo o que se refere ao encontro entre ética, estética e política. Se eu tivesse que escolher dentre os meus interesses, um que aglutina, que concentra minha pesquisa e estudos, direi que é o corpo, não como objeto antropológico apenas, mas como concreto avesso da metafísica constantemente produzido por um sistema econômico-político. Quero compreender o corpo vitimado e o corpo como potência.
Minha intenção com a análise do funk carioca, que irritou muita gente, foi capturar a expressão da cultura como sobra de processos político-econômicos. A ideia de que a cultura é lixo – ou seja, resto – seja de uma cultura anterior no tempo, seja de um processo social no espaço, é o meu foco. Mas não quis tratar disso de um ponto de vista moralizante, quis, ao contrário, mostrar que o funk é o novo ópio do povo. Sendo o ópio a droga pela qual se paga pensando que, por meio dela se alcançou liberdade, enquanto apenas o vendedor de ópio é que se deu bem. A ideia é velha. Eu pretendia com isso pensar a questão estética enquanto ela é questão política presente neste fenômeno cultural. A meu ver, o Funk não é um produto apenas do “povo”, mas da indústria cultural como campo de controle da expressão. O que aparece no funk como expressão não é mais do que a indústria da libido e da sensação, mais um mecanismo de controle dos pobres, dos habitantes das margens para que considerem que a margem é o ouro e não se metam a sair do seu gueto. Claro que o funk carioca saiu um pouco do gueto, mas apenas o suficiente para não pensar que fracassou.
Sobre como podem me ver depois da TV, não confio nesta questão, pois todos – os que fazem tv apenas vivem em uma máquina de alucinar pessoas – somos vistos por tanta gente que qualquer tentativa de fixar uma imagem única do que uma pessoa é, ou parece ser, sempre precária diante do caleidoscópio da existência. E, na verdade, é uma questão que acho perdida pra todo mundo que se preocupe com ela.
A televisão é como nosso olho, arrancado de nós, substituindo nossa visão de mundo, nossa compreensão de um real. A televisão produz uma verdade assumida pelo sujeito no lugar de qualquer outro. Sujeito é já um termo ultrapassado se considerarmos que uma de suas características na tradição que o criou e na qual ele sobreviveu era a autonomia. Esta autonomia é o que o telespectador não tem mais. Assim, vamos deixar o sujeito e pensar em telespectador, alguém que, diante da televisão é prisioneiro do que chamei de lógica do espectro.
Marcia Tiburi para O umbigo das coisas

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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