Esse branco sou eu? Banzo, Esquecimento e Memória.

O ESQUECIMENTO

O meu exercício aqui é tentar caminhar por sobre as obras que revisito e sobretudo as pegadas deixadas por Beatriz Nascimento, neste texto que infelizmente não encontrei online. O que acontece quando nos deparamos com o absurdo racista que procura nos transformar em baratas, metáforas para a construção de nossa desumanidade. Vejo o banzo como resposta à pergunta se mesmo assim vale a pena continuar vivendo.

E assim, quando pretendo explicar o que se produziu em quatro séculos de repressão, de ausência de ser, vejo somente uma imensa amnésia coletiva que nos faz sofrer brutalmente. Esta amnésia coletiva começou a surgir a partir de um porão de um navio negreiro qualquer, e ao nível social, sabemos ou intuímos o que ela produziu. A batalha que travamos todos os dias por dentro, entre o esquecer e lembrar do qual somos feitos.

Para alguém que faça parte de outro grupo racial que não o negro, como acontece em O duplo, isto poderia ser uma tarefa pesada (e dolorida), mas não vital. Para um negro, que não consegue evitar de encontrar a si mesmo nas ruas da cidade como Beatriz Nascimento, ela é vital e aterradora. É como se de repente você estivesse nos anos 1600, cortando cana num canavial, os pés presos a correntes.

Tomando inescrupulosamente como cobaia eu mesma, isto é, partindo da minha experiência, me sinto inclinada a falar sobre o ferro quente com o qual a branquitude marcou minha pele aos quatro anos de idade. Aquela cusparada bem no centro da minha testa. Afinal é preciso que sejamos interrompidos antes que possamos aprender a amaldiçoar, com as palavras criadas por eles. Até mesmo uma criança branca sabe disso. 

A amnésia e a lembrança não sejam apenas nossas afinal, o que explica o tamanho esforço empreendido pela branquitude para que nosso negro interior também seja ferido, açoitado, roto, tonto de banzo, febril, indomado, nos puxando para longe de volta no tempo da história, definindo continuamente assim quais são nossos lugares. Para que sigamos ausentes de nós mesmos, deslocados.

Sobre isso, ouso discordar de Peele sobre sua própria obra, na esperança de que isso não seja uma bravata inglória. Se em Corra (2017) o conflito era com a branquitude, assim como possivelmente acontecerá em Candyman, em Nós (2019) as existências negras bipartidas, deslocadas de si mesmas e ausentes, disputam a narrativa. Um cenário que tira a branquitude da cena e nos coloca em posição de ao menos imaginar como poderiam ser nossos negros interiores. 

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