Cultura & Sociedade

Ford Fiesta e a escala da desigualdade

By October 23, 2012 No Comments

Eu nem sei por onde começar.
Falemos então de sexo, essa obrigação a ser cumprida não importa quando e como. Talvez daí a aproximação de palavras que parecem não casar uma com a a outra, sensualidade e morbidez. Um exemplo foi citado hoje no meu twitter: o retrato sensual de heroínas feridas em batalha.O “conceito” serviu de mote para um comercial da Ford mostrando um homem comum que, após sofrer um acidente, faz um “upgrade de rosto” e se torna Paulo Zulu. Após ter sido atropelado na linha do trem, quem se preocupa em apenas sobreviver, não é mesmo?
[youtube http://www.youtube.com/watch?v=IHiAzhTxU6g]A associação se repete, dessa vez na praia. O sujeito foi resgatado do mar por um salva-vidas negro (aliás, um homem belíssimo) que não serve para a tarefa. Surge uma salva-vidas morena, que até serviria, mas não. É assim que entra em cena Pamela Anderson, eterna baywatch babe, um espécime apropriado para um boca a boca.
Quem sabe numa indicação de que o produto tem um público alvo bem definido, essa dança das cadeiras reproduz uma espécie de escala da desigualdade, o modo invisível mas implacável usado para classificar pessoas segundo seu gênero e perfil étnico-racial. Nesses termos, homens brancos são o que de “mais igual” podemos ter num mundo onde uns são “mais iguais” que outros. Estes seriam seguidos por mulheres brancas, homens negros e finalmente mulheres negras. Não por acaso, é assim que se organizam as pesquisas sobre a desigualdade salarial.
A proposta era “mostrar que ninguém reclama quando é beneficiado por um upgrade“, reporta o Meio e Mensagem. Mas o resultado foi uma mistura indigesta de sensualidade, morbidez e preconceito. Ah sim, a ficha técnica dos envolvidos você confere aqui. E uma última informação: “desde o seu lançamento, em janeiro, as vendas do Fiesta RoCam tiveram um crescimento de 130%, passando do 11º para o 6º lugar na lista dos carros mais vendidos do Brasil“, resume um blogueiro. Enfim, a campanha é ruim e preconceituosa mas é um sucesso…

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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