Arte

Gabriela, sem Cris Vianna, deixará de ser uma marco na dramaturgia brasileira

By June 20, 2012 11 Comments

 Nacib perguntava-se ansioso: afinal que sentia por Gabriela, não era uma simples cozinheira, mulata bonita, cor de canela, com quem deitava por desfastio? Ou não era tão simples assim? Não se animava a procurar a resposta.

Estou assistindo duas coisas que envergonhariam muita gente: A fazenda e Gabriela. Por simples curiosidade (tem um grupo muito inteligente de mulheres no twitter que assiste e ***preciso*** entender seus motivos ou a falta deles) e por desconfiar que Gabriela é muito mais que um simples romance, é propaganda sobre quem somos e como gostamos de ser representados. Mas não somente. É campo de disputa estético tendo como objeto de interesse a beleza feminina como instrumento político.
(…)
Lembro vagamente da primeira vez em que Gabriela foi adaptada. Era criança mas entendi perfeitamente o recado ao ver Sônia Braga toda brejeira subindo o telhado (ou árvore) com as saias levantadas, sorriso largo no rosto. Aquele era o retrato de uma mulher bonita, muito diferente das mulheres à minha volta. Tinha os cabelos compridos, desses que não precisava alisar. E era muito mais clara que minha avó, minhas tias, minha mãe e eu mesma.
Depois veio uma leva de novelas de época com atrizes brancas representando tipos miscigenados como Escrava Isaura. E nesse ponto temos de lembrar que sua antagonista, Rosa, de um tom de pele bem mais fechado. A diferença entre ser a mocinha (ou não) era apenas uma questão de pele. Já as escravas de ganho, as de leva e trás, as da lavoura, as mucamas, essas sempre foram predominantemente interpretadas por atrizes inequivocamente negróides. Recentemente e com alguma discrição a coisa tem mudado… Mas e Gabriela?
Pelo que soube Jorge Amado afirmou ser negra. E a questão aqui não está em saber o que é uma negra ou uma mulata. Porque até mesmo um homem ou criança de tez branca pode ser na realidade negro. Em casa tenho dois desses, filha e marido. Ambos afrodescendentes de pele clara a ponto de serem considerados brancos. A questão está em discutir a representação do tipo negróide ou miscigenado.
Apesar de o autor ter em mente que Gabriela é negra, sempre foi descrita tecnicamente como mulata. E todos sabemos que antigamente (e até hoje) muitas negras são chamadas de mulatas ou morenas, numa tentativa de se evitar qualquer ***ofensa***. Ou seja, todos sabemos o que Jorge Amado quis dizer ao se referir a mulatez de Gabriela. Ainda assim, num país onde existe em contrato a proibição de atrizes negras tomarem sol (conheço pelo menos um caso) a preferência será por uma atriz com traços não negróides.
Recentemente tivemos uma quebra nesse padrão. Para viver a ***mulata*** Dagmar foi escalada a atriz Cris Vianna. Ficou famosa por viver uma mãe de fibra, pessoa de princípios. Por seus banhos sensuais na laje de casa. Por ser colocada em relativo pé de igualdade com Teodora, a periguete loirazuda vivida por Caroline Dieckmann. Uma vitória, sem dúvidas. Aos poucos as atrizes negras começam a viver personagens centrais.  Uma personagem que, diga-se de passagem, foi puro ***cravo e canela***.

A coincidência na caraterização é tanta que até a flor vermelha, marca registrada de Gabrierla, Dagmar trazia nos cabelos. A mesma dose de personalidade e pasmem, até a mesma profissão, cozinhar. Com essa imagem na cabeça indago por que essa Gabriela de cabelos étnicos, nariz arredondado, tez muito escura ainda é impensável para tanta gente. Com Juliana Paes a produção vai ser um sucesso, mas sem Cris Vianna, deixará de ser um marco na dramaturgia brasileira.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

11 Comments

  • Danieli says:

    Olá,
    gostei muito do teu texto! Concordo contigo!
    Sabe que quando vi que a Gabriela seria a Juliana Paes, comentei com minha mãe, pela Gabriela descrita no livro, nem ela, nem a própria Sônia Braga, representam a ideia de jorge Amado, porque, no livro tá claro que Gabriela é negra. O cravo e a canela se devem ao perfume da pele desta mulher!

  • Augusto Guimaraes says:

    Desde Sônia Braga, me pergunto isso. parabéns pelo texto. Se no tempo da primeira Gabriela, podia-se argumentar que não havia atrizes com as características descritas no texto de Jorge amando, hj o argumento não se aplica mais. Temos algumas atrizes que poderiam fazer muito bem a verdadeira Gabriela.

  • Só consigo ver a Cris Vianna no papel de Gabriela. Além de talentosa, Cris é uma negra lindíssima!

  • Verônica says:

    Gostei muito do post Charô, acho até que poderia ter explorado mais sobre o assunto (eu sempre acho isso? rs). Volta e meia nos deparamos com esse tipo de retrocesso. Quer dizer, antes fosse retrocesso, na verdade nós nunca saímos do lugar. Não sei se você ficou sabendo, mas recentemente, uma série juvenil de fantasia, cujo primeiro filme estreou há pouco tempo, Jogos Vorazes, provocou polêmica: atores negros foram escalados para fazer personagens que, até onde sei, não eram especificados (…)

  • Verônica says:

    (ou talvez não tenham sido interpretados como tal, assim como Gabriela para alguns), como negros. Resultado: Protestos nojentos em redes sociais, um me causou asco profundo, uma garota chegou a dizer que a morte de tal personagem ficou menos trsite no filme, por estar sendo interpretado por uma atriz negra.
    A questão de Gabriela também me lembra outra coisa: Gerard Depardieu foi escolhido pra inetrpretar um escritor negro, e, não sei se esse filme saiu do papel, mas muitos acharam um absurdo, porque (…)

  • Verônica says:

    afinal, que trabalho pode dar colocar um ator negro pra interpretar um personagem negro, em vez de ter que maquiar um branco?
    Começei a assistir Gabriela de curiosidade, mas pra ser sincera, a história nunca me cativou muito (não sei o suficiente, pois não assisti a 1ª versão, nem li o livro), por se tratar de uma personagem que representa um ideal masculino de mulher sensual, um ideal no melhor sentido da palavra. Acho que não terem escolhido uma atriz, de fato, negra, tem muito a ver com isso.

  • Verônica says:

    Não sei se me fiz entender, mas um ideal de mulher sensual, como uma mulher que provoca, ao mesmo tempo em que é ingênua e selvagem, tem cheiro de cravo e canela e cozinha como ninguém, ela é como o sexo personificado. Acho que, contraditoriamente, acham que, uma personagem assim jamais poderia ser interpretada por uma negra, pois não seria vista como tal símbolo sexual.
    É engraçado porque, eles fizeram a Juliana Paes ficar de uma cor bem além da dela, chegaram em uma cor, nem negra, nem branca. A cor que na nossa sociedade, e muito no nosso país, é considerada “ideal”.

  • Flávia says:

    A Cris Vianna é uma mulher linda. Com uma energia forte e uma brasilidade bonita, sem ser apelativa para o lado vulgar, mas com uma sensualidade natural e quase que despretensiosa. Isso sim é sensualidade e não peitos e bundas transbordantes, seminus e plastificados. Tomara que ela ganhe mais papéis de destaque na Tv, para acabarmos com essa coisa de ter a beleza negra representada exclusivamente pela Taís Araújo, que apesar de linda e talentosa, parece que é a única atriz negra que a Globo tem para colocar como protagonista.

  • Flávia says:

    Acredito que a caixinha de comentários esteja com um problema, pois a medida que vamos escrevendo, o botão para postar o comentário vai sumindo e se o comentário for um pouco maior, não dá para enviar. Tive que reduzir meu comentário anterior para conseguir alcançar o botão. Beijos!

    • Charô Lastra says:

      Flávia, obrigada pelo comentário e pela dica aqui da caixinha. Parece que é um problema do wordpress mesmo que acontece com todos os temas que eu coloco no blogue e por enquanto não estou conseguindo consertar =(

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