Cultura & Sociedade

Inês Brasil no BBB, por quê não?

By January 7, 2013 One Comment

O blog está vivo novamente. A ideia é blogar quase que diariamente, sempre sobre aquela mistureba boa sobre arte/cultura/sociedade que tanto amo. Pra começar essa segunda, e pensando nessa porcaria que vai ser o próximo BBB, gosto de imaginar Inês Brasil assim, vadiando na cara da gente.
Confesso que fiquei reticente na hora de escrever sobre esse assunto. Em como falar sobre a atração que sinto por todas as pessoas que são quase um manifesto contra o deserto imagético em que vivemos. Já sobre isso lá no Biscate. E acredito que nessa ocasião não me fiz entender. Aqui vou tentar ser direta: Inês me atrai justamente por não ser o perfi BBB.
Desinformada que sou, só a conheci ontem, quando já havia um triste desfecho para sua estória. Boninho fez questão de jogar um balde de nitrogênio em todos aqueles que queríamos queremos vê-la no BBB 13. A declaração foi objetiva: “Não dá. Sorry”. A resposta foi tão lacônica que fiquei vendo e revendo (hipnotizada) os 4 vídeos oficiais da cantora enquanto me perguntava sobre os porquês da recusa.
Me parece incoerente televisionar programas tão popularuchos como Zorra Total (não estou dizendo que Inês também o seja) e recusar a cantora (e agora personalidade da internétchy). Afinal, estamos falando sobre ausências ou excrescências de predicados? Pedro Bial declama que “o jogo da vida real (…) só tem sentido quando a pessoa se escancara, entregue”. E não é exatamente assim que Inês se mostra em seus vídeos?
É odioso admitir que Inês Brasil não foi chamada por não ser uma potencial coelhinha. E daí a gente pode discutir beleza, racismo, sentimento de classe, a ideia de que uma mulher mais velha não seria tão atraente. Mas nunca dizer que se trata de uma pessoa sem interesse, que não sustentaria a audiência por 3 meses. Ninguém da casa discute física quântica e tenho certeza que Inês daria conta do recado.
Outro motivo talvez seja seu modo provocador de estar. Um je ne sais pas quoi que evidenciaria o quão pasteurizado, empobrecido e equivocado é o retrato da mulher em tramas como Suburbia, por exemplo. Só para situar você na absurdez e obviedade da coisa: Conceição foi coroada rainha de bateria com um manto de Nossa Senhora, seu namorado virou pastor evangélico e os dois se casaram. Detalhe: o vestido de noiva parecia coisa do Walt Disney.
Seria mais fácil entender Inês Brasil por meio da objetificação do corpo feminino. Mas sinto uma coisa tão diferente emanando de suas performances que prefiro me ater ao modo simples, objetivo e espontâneo como ela manifesta sua arte, sua sensualidade e sua sexualidade. E acredito que ela incomoda (e agrada tanto) justamente por causa desse traço de personalidade inegavelmente biscate.
O que me faz pensar no modo viciado com o qual são mostradas as biscas, agora piriguetes, na televisão. Essas personagens são quase sempre representadas por atrizes cujo discurso é de ódio para com essas mulheres, no mínimo com alto teor de slut shaming. Vide o caso de Natalia Lage em Tapas e Beijos e Isis Valverde em Avenida Brasil. Por essas e tantas outras que imagino o quiprocó se essas mulheres conquistassem espaços de visibilidade onde fossem sujeitas.
Não quero negar aqui o esforço evidente de Inês Brasil para se adequar à estética do reality-show. Mas não é sobre isso que quero falar. Meu olhar enxerga uma mulher negra (em tempos de Dona Adelaide), fora da faixa etária de uma periguete padrão (tipo assim, Madonna, só que menos chata), que faz arte (que muitos chamariam de chorume cultural) de um jeito muito pessoal.
Ela está à margem, daí o fascínio que exerce mim.
[post_ender]Esse post foi originalmente publicado no meu antigo blog, o Arroz com Feijão.[/post_ender]

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

One Comment

  • E. Cohen says:

    Não conhecia a Inês Brasil, mas vendo os vídeos dela, me lembrou um pouco a Amanda Lepore. Desconsidere o comentário se eu escrevi m*rd*.
    Que bom que você voltou! 🙂
    Beijão!

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