Cultura & Sociedade

#limitetabaco – Não deveria ser legal fumar quando a classificação é livre

By November 5, 2012 No Comments

Maria Fernanda Cândido está em Lado a Lado na pele de uma deslumbrante, independente e escandalosa dançarina francesa, Mademoiselle Dorleac. No capitulo que foi ao ar hoje, sua personagem vai até a confeitaria Colonial (uma alusão à Confeitaria Colombo), espaço frequentado por jovens galanteadores do Rio de Janeiiro. Ali, vestida de homem (cartola, smoking e bengala), puxa um charuto e pergunta qual dos senhores poderia lhe acender o fumacê.
Se em algumas cidades na década de 60 a mulher ainda estava às voltas com o uso de calças, imagine o que significava adotar a alfaiataria na década de 30. Para compor a personagem, a inspiração veio de mulheres como Marlene Dietrich (Marocco, 1932) e até mesmo Josephine Baker, que além do smoking, também usou uniforme militar após o término da Segunda Guerra. A genealogia do uso de roupas masculinas por mulheres inclui nomes como Georges Sand, escritora, ainda na década de 1830.

Essa subverssão ou contestação pode acontecer de diferentes maneiras:  É evidente que a invasão do vestuário do sexo oposto ataca a impermeabilidade que se pretende ter entre eles e, por isso mesmo, é provocador. A transgressão e a subversão tem grande apelo erótico.
Empréstimos de peças de vestuário de outro sexo demonstram subitamente um tipo moderno de consciência de que a sexualidade é fluida, inexplicável e até mesmo desconfortável, e não estática, simples e fácil. Se a separação visual entre homens e mulheres começa a parecer simbólica demais, a moda começará a produzir uma perturbação. Mas essa perturbação se dá de diferentes maneiras, e com diferentes níveis de erotização. #

Umberto fica incomodado com as roupas de Dorleac.

Tudo muito lindo.
O problema é que o tabaco adere a ess vocabulário subversivo e se torna sinônimo de juventude, rebeldia e sedução. Se fosse um comercial de cigarros, nem mesmo a associação com esportes teria sido tão eficiente. Isso me incomoda e muito. Simplesmente por que não se trata de um hábito, mas um vício televisonado de forma glamourizada antes das 21h00, nas mãos de uma mulher considerada belíssima, inteligente e à frente do seu tempo quando apenas adoção da cartola e o uso coreografado da bengala teriam sido suficientes para transmitir a ideia.
Não ficaria bem uma inserção (a prática de introduzir produtos nas tramas) de cigarros Souza Cruz. Mas colocado de uma forma sútil, quase imperceptivelmente gritante, funciona como uma excelente propaganda. E justamente por isso me pergunto até quando coisas desse tipo serão permitidas quando a classificação etária é livre. O mesmo com bebidas alcóolicas. Ou ainda com essa onda de assassinatos à queima roupa transmitidos por programas policiais, também com classificação livre.
Não é segredo para ninguém que a Nicotina vicia logo no primeiro contato, com a mesma ou superior intensidade que drogas consideradas pesadas. Por outro lado, uma grande parcela de pessoas ainda insiste em achar que o tabagismo se trata de uma escolha pessoal. Alguns defendem que o tabaco pode ser um produto tão gourmet como a água gaseificada ou chocolate. Não é para essas pessoas que escrevo. Quero dialogar  com aqueles que se preocupam com a propaganda, direta ou indireta, que atinge gente jovem e despreparada para lidar com esse tipo de informação.
Escrevo para alertar que é dessa forma que produtores de tabaco atingem uma grande parcela de novos fumantes (90% dos tabagistas começa a fumar antes dos 20 anos). Para dizer que não deveria ser legal fumar quando a classificação é livre. Para pedir que o mesmo rigor usado para com a propaganda de produtos fumígeros e bebidas alcoólicas (que não deve associar idéias ou imagens de maior êxito na sexualidade das pessoas, insinuando o aumento de virilidade ou feminilidade de pessoas fumantes, lei nº 9.294) fosse ultilizado como régua para sua aparição na ficção.
 

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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