Só o creme

Monteiro Lobato merece uma nota de rodapé

By September 25, 2012 No Comments

Olá,
fiquei um tempo sem aparecer no blogue porque comecei algumas coisas novas out of desk: literatura e tricô. Mas como assim? Explico a coisa toda: decidi finalmente ler Odisséia de Homero. Para acompanhar, nada melhor que tecer fios assim como a esperta Penelope.

Odisséia

Seu marido Odisseu é mantido em cativeiro numa ilha pela deusa Calipso. Enquanto isso, em sua casa na ilha de Ítaca, sua esposa Penélope deve escolher um novo marido já que toda sociedade supõe Odisseu morto. Como acredita no retorno do marido, tece-lhe uma mortalha que é desfeita durante a noite, assim nunca termina o serviço.
Por outro lado, enquanto a mortalha não é finita, seus pretendentes se mudam para seu palácio e seguem gastando a fazenda (grana) dela e de Telêmaco, dividido entre a saudade do pai Odisseu e a raiva em ver suas riquezas gastas em banquetes sem fim.
Mas assim, se entendermos a obra como metáfora da realização humana, é muito bonito de pensar que estar vivo é nunca terminar a própria mortalha, é um recusar estar-se imobilizado, inerte. E daí que fiquei fascinada com tudo isso e decidi tricotar.
Porque acredito que não é possível ler a Odisséia e permanecer a mesma pessoa sabe. Na bundinha do livro, traduzido do original pelo excelente Carlos Alberto Nunes, encontrei uma fala muit interessante. Para resumir, indica a obra como fundamental para a sociedade ocidental. Ou seja, nós somos a Odisséia.

Os doze trabalhos de Hércules

Isso me deixou muito curiosa porque, de um modo muito peculiar, fui transportada para Os doze trabalhos de Hércules de Monteiro Lobato que li a primeira vez aos 12 anos. E lembrei daquela estória de ele falar que escrever é um modo indireto de se fazer eugenia…
E me coloquei a seguinte questão: Lobato pretendia ser fundamental (no sentido de fundar) para a cultura brasileira assim como Homero foi para o pensamento ocidental? Trocando em graúdos, nós também somos a literatura de Monteiro Lobato? E daí que achei uma fala muito interessante no livro sobre isso:

Durante a marcha rumo ao olival Hércules foi contando aventuras e mais aventuras, enquanto Emília desfiava todo orosário das coisas prodígiosas acontecidasno sítio de Dona Benta.- Que sítio é esse? – perguntou o herói.- Ah, nem queira saber! – respondeu EmIlia. – É a nossa Grécia Heróica lá do mundo moderno, no século 20. O sítio é a nossa fazendinha gostosa. Temoso pomar, temos o ribeirão, temos aporteira do pasto, temos o cupim pertoda porteira, temos a vaca Mocha…

Detestaria afirmar que a resposta é sim sem ler todo o texto. Mas… Eu diria que sim viu. A questão é que nós fomos mas… Queremos continuar a ser O sítio do picapau amarelo? Acho que esse é um belo ponto de partida para tudo isso.

E adianta falar que uma notinha de rodapé não dói?

A saga continua. Pessoalmente, a despeito do resultado conseguido junto ao STF, a estratégia do Instituto Iara (Instituto de Advocacia Racial e Ambiental ) tem sido exemplar na denúncia de que a obra de Monteiro Lobato é racista sim por mais que muitos leitores (despreparados ou muitíssimo mal intencionados) não consigam entender isso.
E para nossa alegria, pelo menos a minha, agora o instituto aponta sua munição para A negrinha. A Veja chora e chama tudo isso de perseguição, né. O hábito consagrado de escrever simples notas de rodapé está sendo rotulado como censura pelo povo do alheio (parece aquela famosa cena de Ó pai ó em que Lázaro Ramos faz o maior discurso e o sujeito responde com um tomá no cu ou coisa parecida). Eu rio:

Tudo indica que as obras de Monteiro Lobato (ainda) não serão proibidas. Elas serão apenas censuradas. Sim, censuradas, porque, embora mantida sua distribuição e circulação, passarão a conter notas explicativas — quiçá alguma advertência (como nas carteiras de cigarro) — com a finalidade de contextualizar o período em que foram escritas. Aliás, já fizeram isto no caso da extinção da onça pintada, em defesa de outra causa politicamente correta: a questão ambiental. Fico pensando que tipo de advertência fariam no desenho do pica-pau…

Picapau meu filho, assiste quem quer, não está no currículo da criançada. Fora que o limite entre realidade e faz de conta é bem construído, coisa que em Monteiro Lobato e a despeito do pó de pirlimpimpim é muito tênue. Sobretudo no que diz respeito às relações interpessoais. Veja, Nastácia ainda chama Benta de “dona” e “sinhá”.
Mas nem tudo são trevas. Um texto na Carta Capital, de Willian Vieira,  destaca que o preconceito é palpável. E discute a necessidade ou não de se adotar notas de rodapé. Ao final de tudo opina que sim. Coisa que eu acho de um otimismo mosntruoso de lindo e perigoso ainda que concorde que uma notinha de rodapé nesse caso é uma baita vitória sabe. Porque nesse caso uma notinha de rodapé dói muito…

A blogueira ama: A Odisséia de Homero, por Carlos Nunes

‘Odisseia’ é um poema épico que narra as peripécias vividas por Odisseu em seu retorno de Troia para sua Ítaca natal, onde anseia por rever seu filho Telêmaco e a esposa Penélope. Depois de errar por dez anos, impedido por Posido de retornar para casa, o herói do poema tem que vencer a prepotência dos pretendentes, que permanecem no palácio e dilapidam os bens da família.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

Leave a Reply