Cultura & Sociedade

Ninguém duvida que o texto de Monteiro Lobato é racista. Mas e o que vem depois?

By September 9, 2012 2 Comments

 Se você acredita que a relação entre Dona Benta e Tia Anástácia não tem nada de urgente, agravante e sério, é porque o Monteiro Lobato conseguiu o que queria.

Dia desses fiquei boquiaberta com a coragem que teve Ariano Suassuna ao defender publicamente e em pleno século XXI a Teoria da Criação. Tive de repetir para mim mesma: como assim, ele desacredita na Teoria da Evolução? Me senti uma amoeba sem dente por não ter extrapolado o fato afinal isso faz parte do processo de ler um livro. Se tivesse lido (de verdade) O auto da compadecida, teria encontrado ali um católico ferrenho, fervoroso até. Isso me lembra um senhor maravilha (obrigada Monsieur Briant) que me deu as primeiras pistas sobre o que é a leitura.
Aqui em casa frequentemente discutimos sobre o influência que a biografia do autor tem em cada obra, coisa pra lá de evidente em alguns casos como Baudelaire e Poe. Mas que não tem a mesma obviedade quando estudamos um cientista. Veja o caso de Albert Eisntein que provavelmente batia em sua mulher e nos filhos. Ou ainda o excepcional Alan Turing, o cara (gay) que salvou o mundo e se matou antes de ser julgado e humilhado por causa de… Práticas homossexuais (triste, gente, triste). Restam apenas suas correspondências (que devem ser uma delícia como estudo de caso) e o legado científico, blindado pela suposta retitude das artes ditas exatas.

A naturalização do preconceito e da dominação

A naturalização do preconceito e da dominação: infelizmente a maioria dos leitores jamais perceberá que Monteiro Lobato conseguiu o que queria.

Mas o que acontece quando a principal herança de um autor são as palavras que cunhou em vida?

Esse é o caso de Monteiro Lobato, de quem herdamos palavras embuídas de si e de sua visão de mundo. Daí a urgência de concordamos de uma vez por todas que sim, ele era mesmo racista de modo a chegarmos em um consenso em ralação ao que faremos com sua obra. E se hoje em dia mais de 95% das pessoas afirma conhecer um racista, imagine no Brasil do século XIX. Alguma dúvida? Para aqueles que desacreditam a revista Bravo apresenta uma coletânea de cartas onde o autor faz defesa da eugenia.
E para aqueles ainda imaginam O sítio do pica-pau amarelo como um lugar ingênuo e feliz, onde predomina a convivência cordial e pacífica entre afrodescendentes e brancos ou pior, que ainda não conseguem relacionar biografia, posicionamento de mundo e literatura, o próprio Monteiro Lobato explica:

“A escrita é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, ‘work’ muito mais eficientemente.” Monteiro Lobato em carta a Renato Kehl, 1930.

Infelizmente les jeux sont faits. Nos resta abolir (ou não) uma literatura eugenista em nossas escolas. Na próxima terça o STF fará uma audiência de conciliação para discutir a adoção de livros de Monteiro Lobato pela rede pública de ensino e espero vivamente que levem em consideração as próprias palavras do autor: o texto de Monteiro Lobato é escrito com o intuito de perpetuar o racismo em nossos corações, fim. E se você acredita que a relação entre Dona Benta e Tia Anástácia não tem nada de urgente, agravante e sério, é porque o autor conseguiu o que queria.
E o mais perverso de tudo isso é que tornar invisível e naturalizar uma relação de desigualdade e dominação são medidas tomadas desde muito cedo e o estrago está feito. Quem cresceu lendo Monteiro Lobato talvez jamais venha a entender realmente do que se trata porque só consegue ter com a obra uma relação de carinho sem conseguir, assim como eu não consegui com Suassuna, enxergar um racista ferrenho, fervoroso até. Um escritor que conseguiu tornar um dos maiores estereótipos racistas numa personagem que é alguém “da família” como Tia Anastácia.
É por isso que essa decisão será um marco: temos de decidir enquanto sociedade e de forma muito concreta o que devemos fazer com nosso passado (e quem sabe presente) racista. Um passado que não podemos negar, apagar, esquecer, polemizar como acontece toda vez que alguém o.u.s.a alegar a existência do racismo. Não podemos simplesmente apagar ou simplesmente deixar passar em brancas nuvens, como gostariam aqueles que acreditam em fazendinhas felizes.

Machado de Assis era afrodescendente. Só pra lembrar, just in case.

E qual é o posicionamento dessa blogueira que vos fala?

Não abolir mas dirigir o estudo da obra, a escolha mais complicada de todas. Porque pode acontecer que venhamos a esquecer que um de nossos maiores escritores era racista, assim como muitos preferem esquecer que talvez o maior deles era afrodescendente. Que Monteiro Lobato seja leitura obrigatória a partir do ensino médio onde esperamos que nossos leitores tenham capacidade para entender do que se trata. É claro que estou sendo muito otimista.
Muito né.
 

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

2 Comments

  • Zuni says:

    A naturalização do racismo na literatura se expressa muito claramente no processo de “branqueamento” de Machado de Assis, não apenas em sua época, mas hoje em dia, quando vemos um banco federal lançar um comercial em que um ator branco faz o papel de Machado. (http://www.youtube.com/watch?v=10P8fZ5I1Wk)

  • Isa says:

    A Caixa retirou esse comercial pouco depois de ele ter ido ao ar, mas, felizmente, há o registro da tolice. Não dá para apagar o passado, como tentou Rui Barbosa ao incinerar os documentos cartoriais de compra e venda de escravos na suposta tentativa de apagar a mácula histórica da escravidão. Na minha opinião, não que essa tenha sido a intenção da época (se bem possa ter sido), a incineração poupou muita briga judicial por indenização e discussões de reparação histórica no âmbito privado, que trazem muito mais prejuízos individuais do que as reparações históricas abstratas e no âmbito coletivo.

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