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O projeto não é Fora Temer

Escrito em 24 de julho de 2017.

O projeto sempre foi o extermínio: uma identidade nacional que busca reviver a gênese do projeto escravocrata de nação, em que todos são brancos, cisheteronormativos, ricos, cristãos e caretas!

Sempre gosto de botar reparo, nos momentos de profundo ataque à população marginalizada, no que está sendo gentilmente ofertado à população na televisão. Muito geralmente temos ali um termômetro ou pelo menos um instantâneo do panorama.

Agora na maior emissora do país mais uma vez televisiona uma novela sobre o império. Não há nada de novo, obviamente. Domitilas, Dão Pedrinhos, Leopoldinas e Aninhas. Gente branca, gente rica, gente de bem, gente que é o padrão de gente até hoje.

A insistência descabida e descarada de não olhar para quem somos. Vaz de Caminha transformou a riqueza a ser usurpada em poesia, mas simbolicamente estabeleceu a regra – o que não é reconhecido e visto, pode ser exterminado. E o que pode ser exterminado são todos aqueles que não estão na novela.

Nós somos as outras. As lixo humano. As pretas, as gay, as lésbicas, bi, as travesti. As gordas, as pobre, as periféricas, as sem carteira assinada, as velha, as usuária, as puta, as indígenas, as cigana, as macumbeiras, as bruxas, as insubmissas. Pra todas o mesmo projeto, o extermínio seja em vida, seja em morte.

Nós somos: a gentrificação como ataque gravíssimo a qualquer possibilidade de projeto democrático

Há quase 20 anos, como jovem estudante de arquitetura, minha primeira tarefa foi visitar a região da Luz. E foi exatamente o que fiz, com uma câmera fotográfica debaixo do braço, fui até aquela parte da cidade que não fazia parte do meu vocabulário.

A primeira pessoa que falou comigo foi um homem em trajetória de rua, preto, cabelos brancos. Perguntou o que fazia ali, me identifiquei e foi me dada a palavra de que não deveria andar por ali “daquele jeito”. Além do conselho, tive uma ótima companhia para fazer o trabalho. Ele sabia de um tudo e de todos.

E de câmera em punho, registrei tudo.

Esse é o tipo de produto que os professores de fotografia abominam e em alguma medida, concordo com eles. É aquilo que todo mundo quer retratar como fetiche, onde é mais importante a “descoberta” do autor que a pessoa fotografado que se torna um objeto em absoluto. Geralmente são feitas por pessoas que, como eu, nunca viveram tal experiência. Gente que faz dos corpos alheios de lucro, proveito.

Existe porém uma situação em que tudo se inverte. É quando essas pessoas, sem acesso à máquinas fotográficas mas completamente conscientes do poder que a imagem tem, pedem para não ser esquecidas, para que sua estória seja contada. Não são lixo humano, não estão suplicando por redenção.

A mesma experiência, ainda quase 20 anos depois, foi vivida em Belo Horizonte e também gostaria de compartilhar as fotos que fiz, porque foi exatamente isso que me foi pedido – “poste nossa estória”. Há sorrisos, brincadeiras, lembranças em cada movimento da objetiva.

Sempre me perguntei a natureza desses pedidos. Talvez, somente talvez, esteja intimamente ligado ao que me disse aquele homem na Cracolândia e que por muito tempo me foi um mistério. Ele disse, “você é uma de nós”.

Obviamente nunca foi sobre mim mas sobre a responsabilidade de ter os meios e os privilégios para estar nos espaços que eles jamais estariam. Não como uma salvadora, mas como um instrumento, um meio para que seus rostos e sua humanidade fosse lembrada e o genocídio a que somos submetidos enquanto povo fosse denunciado.

Você é uma de nós foi sua maneira de dizer que somos nós os pretos que estamos sendo mortos, em vida ou morte. Como denunciou Erica Malunguinho, a gentrificação nada mais é que uma ferramenta pra matar preto e pobre. E somente uma pessoa negra, que vive o racismo na pele, entende.

O projeto não deve ser Fora Temer

Mais que nunca precisamos de um projeto de poder, afinal Fora Temer nunca foi um escopo de alguma valia para o povo preto. Digo isso porque temos trabalhado de maneira reativa, à mercê por exemplo das propostas estapafúrdias de reformas. Mas e se, ao mesmo tempo, pudéssemos criar uma plataforma de tomada do poder?

Uma discussão que contemplasse um novo projeto de identidade nacional, capaz de reafirmar a constituição incluindo metade da população que se encontra alijada da ideia de cidadania e promover práticas econômicas socialmente sustentáveis. A única alternativa seria eleger uma presidenta negra até os ossos. Isso é muito mais que Fora Temer.

Felizmente é o que estamos fazendo.

Uma companheira perguntou se acredito nisso. Não tenho dúvidas que esse nome existe. O que nos falta porém é chegarmos num consenso sobre o projeto político que ela representará. Compreendo perfeitamente que não morrer seria muito bom. Por outro lado somente tomando de assalto o poder essa construção será possível. E não vai ser num mandato apenas. Serão necessárias pelo menos três décadas de esforço continuado.

O que você acha?