Sobre as Memórias do Câncer

Desde o ano passado em que participei de uma live sobre o Outubro Rosa, tenho me perguntado como posso me fazer entender quando expresso que não se trata de uma história de superação, de uma metáfora poética, de um querer. Mas sim uma questão de saúde pública perpassada grandemente pelo racismo e outras violências.

Esse é o primeiro ano em que decidi não fazer nenhuma fala pública à respeito, mas sim intimista e verdadeira com o meu momento de vida e com aquilo que penso agora. É preciso que façamos um reviravolta no modo como estamos discutindo o câncer e o Outubro Rosa. Escrevo para quem sabe contribuir com essa discussão. Mesmo aqui, nesse canto obscuro da internet.

O Outubro Rosa não pode mais ser uma data cisgênera, por exemplo. Muito menos podemos nos dar ao luxo de nos perder em distrações esteticamente esvaziadas, entregues à industria da farmácia e da assistência médica. Não vou falar com essas pessoas e com esses propósitos. Quero falar muito mais sobre como atravessamos essa experiência que pode ser tão árdua para mulheres pretas.

Agora que estou lendo The cancer journals, ou Memórias do cancêr em tradução livre. Decidi fazer algo diferente, construir essa memória enquanto ela acontece para que eu mesma possa revisitá-la para além das anotações enigmáticas que tenho usado em meus livros até aqui. Essa é uma das estratégias que pretendo usar daqui para a frente… Um ensaio para a criação consistente e política de memórias.

Estou com o livrinho impresso aqui do meu lado. Vou lendo e escrevendo. Quase que construindo um pequeno fichário de anotações, bem ao estilo de Walter Benjamin quando estudou as passagens de paris. Gostaria de discorrer mais sobre isso, mas por hora acredito que basta dizer que a urgência que ele teve é um pouco parecida com a minha.

Então decidi, mesmo que de maneira solitária, escrever sobre esse processo que para mim significa a retomada da minha escrita e ao mesmo tempo uma oportunidade de me aprofundar na reflexão do que é ser uma mulher negra que convive com o câncer e às ameaças de uma recidiva. Agora que também investigo um tumor na garganta, que espero ser benigno, escrever me faz passar por esse momento de uma outra maneira.

Preciso me lembrar da alegria, Memórias do câncer

Preciso me lembrar da alegria, da leveza, do riso tão vitais para minha vida e minha saúde. Caso contrário, o outro (câncer) sempre estará esperando para me devorar até o desespero novamente. E isso significa destruição. Não sei como, mas é.

I need to remind myself of the joy, the lightness, the laughter so vital to my living and my health. Otherwise, the other will always be waiting to eat me up into despair again. And that means destruction. I don’t know how, but it does.

Audre Lorde, Memórias do Câncer

Todos pareciam indistintamente desesperados. Essa é a única certeza que tenho ao lembrar da cena que emoldurava aquela cena.

Talvez Seu Alcides estivesse ali no fundo do quintal, descamisado e sem seu boné quadriculado à esconder a careca negra e reluzente, ladeada por brancos cabelos encaracolados e curtos. Já não me lembro se sua esposa, aquela senhora baixinha de cabelos igualmente brancos e curtos, estava com seu costumeiro pegnoir estampado com pequenas florzinhas sobre um fundo rosa ou azul. Se também sairam de casa assustados deixando a porta entreaberta a revelar um enorme corredor enfeitado de samambaias para ver aquele ranger de dentes, não saberia dizer.

A vizinha da casa ao lado, que morava num quarto, sala, cozinha e banheiro protegidos por um portão branco encostado em quatro degraus cada um de um tamanho e que finalmente caiam no mesmo nível do pátio central, olhava por cima de um muro de concreto que há muito não via uma tinta. Talvez os bem mais altos conseguissem ver um pouco mais do que seu dois grandes olhos arregalados e aqueles bobes cuidadosamente enrolados, amarrados por um pano de cabeça. Certamente estava na ponta dos pés.

Do lado de dentro de uma das casinhas, aquela que era um quarto e cozinha onde moravam quatro pessoas servidas por um banheiro que ficava do lado de fora, uma velha de cabelos brancos colocava as mãos na cabeça em desespero. Chorava. Já havia defumado a casa, mas nada parecia adiantar. Na mão direita trazia um terço de Nossa Senhora de Fátima. Suas rezas agora eram indistintas lamúrias que se misturavam ao conversê e curiosidade de muitos.

Do lado de fora, um homem pequeno, sem camisa, usando uma bermuda, olhava com carinho para o rosto daquela mulher preta que chorava sobre aquela maca que estava metade do lado de dentro, metade do lado de fora. Ela também colocava as mãos na cabeça. As duas. Como se quisesse fazer aquela dor sumir. Aquela que tirou o sono de toda a casa e certamente do vizinho de parede.

Foi ela quem disse que tudo ficaria bem.

Uma mulher jovem, tão jovem quanto, se debruçava sobre aquele corpo deitado, entregue à dor. Naquele dia ela não estava com o cabelo enrolado em bobes, muito menos com pasta, certamente havia se penteado há pouco pois as ondas em sua cabeça eram altas e reluzentes. Era a voz da razão, estava acostumada com tudo aquilo. Era seu métier. Procurava colocar cada uma das personagens em seu devido lugar, inclusive aquela pequena criança de não mais de 4 anos que tentava entender o que estava acontecendo.

A maca acabou indo embora.

Ao cruzar o portãozinho do pátio deixou uma tristeza sem fim.

A memória não me permite dizer se ao voltar alguns dias depois, aquela mulher trazia no colo uma bebê, enrolada com um pano feito de cheirinho de rosa, tecido em crochê feito de lã de algodão. Se foi nessa época em que aquelas fraldas brancas, dessas que são lavadas a cada uso, passaram a enfeitar todo o varal com desenhinhos de criança. Não sei se todos poderiam ouvir aquele choro.

Mas foi nesse dia em que ela voltou.

Enfim poderíamos desenhar juntas novamente.

Aquela nuvem…

Depois que aquela nuvem desceu sobre seus olhos. Nada mais importava.

A filha, que ficaria adeus dará. Possivelmente enlouquecida pela loucura de quem anda sem destino e sem consciência. De que é capazes de levantar uma faca para qualquer um que se coloque em sua frente, mesmo para quem mais ama. De quem bebe e fuma o dia todo, sem se preocupar com quem chega e com quem vai. O marido, que se casasse de novo. Já não sentia mais ciúmes da futura mulher com quem ele se casaria depois que ela morresse. Fosse branca ou preta, se lhe daria mais ou menos amor, nada lhe competia. Nem que a levasse até Paris… Mesmo ao Louvre para ver as mais belas obras do Egito Antigo. Sabia que seus pais morreriam tão logo. Quem sabe assim, se houvesse algum céu poderiam se encontrar. Mesmo que não acreditasse em nada disso. Todos haveriam de morrer, ficaria a carne, mais ou menos dia. Dos poucos amigos, não lembrou nenhum. Mesmo aquele que sempre foi um dos maiores amores de sua vida. Sem forças, conseguiu chegar até o ponto do busão, destino Paulista. Escolheu na parte mais alta da cidade o prédio mais alto dos primeiros quarteirões. Subiu até o último andar e procurou uma janela aberta, a rota de fuga mais importante de sua vida. Olhou para baixo e se lembrou de todas as imagens que viu naquela semana, ao pesquisar como seria. Hesitou ao olhar as formas de concreto tão concretas em sua volta e sentir o vento nas fuças. Ficou se perguntando se seria possível fazer o tempo correr ao contrário, de baixo para cima. Deu para trás. E desde então continua sentada debaixo daquela árvore pequena, que fica bem ali.

Foi aquela mesma nuvem que desceu sobre seus olhos naquele dia….

Que hoje fez chover aqui.

O tumor que hoje habita minha garganta não é uma metáfora. Mas se fosse uma estória…

Antes de qualquer coisa preciso explicar porque uso a palavra dor e ancestralidade conjugadas. E antes do antes, dizer que acredito na necessidade de preservá-las para que ela não se tornem mais uma vez a bola da vez que entregamos à influência, esse braço tão perigoso quanto bonitinho do capitalismo.

Aqui, quando falo de ancestralidade aqui, penso em territórios delimitados, porque conheço meus ancestrais. E tenho ciência de que cada prato de comida, cada pedacinho de conforto e até privilégio, tem nome e sobrenome. São pessoas reais que a cada dia respeito ainda mais, mesmo dentro de todas as enormes limitações que tenho e da minha dupla cidadania, tanto no país da saúde e no país da doença.

Dessas pessoas muitas lições foram aprendidas, comidas, danças e cantos sagrados… Mas também cicatizes emocionais, psíquicas e genéticas. Não por acaso em meu corpo foram inscritas duas marcas, o transtorno afetivo bipolar e uma mutação genética que predispõe ao câncer, dois estigmas que à duras penas e com a ajuda de voduns e encantados procuro entender e viver além de. Felizmente estou aqui para contar essa estória.

E se estou falando de sentir, entendo a emoção como instrumento de percepção e análise do mundo e do meu passaporte ao mundo dos doentes. Tão político quanto todas os complexas referências bibliográficas e dados que quase sempre acompanham a disputa de narrativas.

A mim obviamente interessam os conceitos, as análises de conjuntura e os estudos que afirmam que… Mas como pensadora, decidi como método partir da inserção dos meus corpos em territórios de estudo. Sendo meu próprio corpo como uma cidade, um continente de sentidos, sentimentos e estórias que são o meu instrumento. Que não pode ser culpabilizado como se fosse possível fazer um câncer.

Por qualquer motivo que se possa inventar.

Mas especialmente por eu ser uma mulher bipolar.

Ora, respeite a minha dor.

Abscessos, tumores, nódulos, pedras…

não são

São palavras calcificadas,

poemas sem vazão, poemas presos.

O tumor que hoje habita na minha garganta não é uma metáfora. Mas se fosse…

Seria… Uma história de racismo estrutural.

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Depois do escrito – O tumor que me refiro nesse post é uma lesão benigna.

Pensando a influência no Instagram: Nós somos o prato principal.

A influência está potencialmente ao alcance de todos.

A promessa é a de que não importa quem você é ou o que tenha para compartilhar, sempre haverá alguém pronto a te seguir. Podemos postar nossas vidas e nossos pontos de vista sobre absolutamente qualquer coisa, inclusive todos os produtos que usamos ou somos pagas para usar e falar sobre, desde que isso não seja contra as regras das de cada comunidade, quando estas existem.

Há um quê de assustador nisso. Mesmo o ódio ajuda a alavancar perfis. O cancelamento, que poderia ser entendido como a reprovação pública de alguém, também rende curtidas e engajamento. Contribui para o tempo em que permanecemos conectados, fornecendo dados e conteúdo de graça gerando bilhões em lucros.

O curioso é que o desconforto de Somebody’s Watching Me é o sonho de muita gente. São negócios. Cada postagem é um espaço de sonho e consumo estratégicos na engrenagem capitalista como ferramenta de produção e consumo de bens mas também de imagens de desejo. O Instagram talvez seja a principal plataforma na atualidade onde consumo e sonho se entrelaçam. Trata-se de “trazer para mais perto pessoas e coisas que você ama”.

A origem do nome Instagram que nada mais é que o juntamento de dois termos interessantes, “instant camera” e “telegram” também é um indício de como essa rede funciona. Ou seja, estamos falando de uma câmera instantânea que registra o momento presente e o telégrafo, uma tecnologia de envio de mensagens.

As polaroides eram mais que máquinas fotográficas. Dispositivos que também serviam à apreensão e mediação da realidade, como se pudéssemos entender o que de fato aconteceu há um minuto somente depois de termos nas mãos uma imagem revelada sobre. Já o telégrafo estava intimamente ligado ao código morse. Ou seja, comunicação codificada.

Em outras palavras, o uso do Instagram pressupõe uma compreensão profunda sobre o própósito a ação de influenciar. Meu incômdo é justamente esse. Sobre o que compartilhamos e defendemos nas redes, sobretudo enquanto indivíduos, uma vez que há muito mais em jogo do que servir beleza, como vimos nas legendas do Met Gala.

Valorizar padrões de beleza, felicidade e consumo pode ser muito prejudicial para quem voluntaria ou involuntariamente consome essas imagens de desejo. Postagens onde até mesmo a vulnerabilidade é pensada milimetricamente para ser compartilhada.

Referências

E só consigo pensar…

Hoje o Estados Unidos declararam terem saido em “definitivo” do Afeganistão. Todos os olhos estão voltados para esse pedaço de terra. O Biden, o “cara” para quem a gente fez a maior torcida, tem mostrado à que veio. Colocou tudo na conta da administração anterior e saiu correndo. Se você é fã de Star Trek e não entendeu (até agora) para que serve a primeira diretriz da Forta Estelar, essa é a sua oportunidade.

O extraordinário sucesso desta missão foi devido à incrível habilidade, bravura e coragem altruísta dos militares dos Estados Unidos e de nossos diplomatas e profissionais de inteligência. #

E vocês também notaram que a vice-presidenta do país mais “poderoso” do mundo não tem falado praticamente “nada”. Ou melhor, a cobertura sequer notou sua “ausência”? Ela não disse nada sobre o duradouro pesadelo dos últimos dias e as notas sobre essa tal de Síndrome de Havana tem sido um tanto quanto conspiratórias….

Os militares americanos que perdemos em Cabul eram heróis. Eles foram ao Afeganistão para cumprir uma missão muito perigosa e complexa. Uma nação agradecida está em dívida com cada um deles. #

Parece que as notícias fazem alguns esquecerem que estamos vivendo uma crise de abastecimento de água, muito mais grave que aquela de 2013. Ou ainda os dados alarmantes do novo Atlas da Violência: 2.074 pessoas indígenas foram assassinadas entre 2009 e 2019, um aumento de 21,6% na taxa de homicídios. A população negra ainda é a maioria das vítimas dos homicídios em 2019, com 77%. Entre a população trans e travesti, a violência aumentou 5,6% em 2019, com 3.967 registros.

E só consigo pensar, como eu posso guardar um copo de água para você.

Enxo Enzo, Les yeaux ouverts.

MASP ou ainda somos brutalistas

O Edifício Dumont-Adams, aquele do ladinho do MASP vai ser reformado e incorporado ao projeto de Lina Bo Bardi e será batizado de Pietro Maria Bardi. O projeto parece saído diretamente de um livro de arquitetura ou de um filme de ficção científica. Não posso deixar de pensar naquela cena de 2001, com os hominídeos empunhando ossos. Ou do monolito no meio da sala.

2001, uma odisséia no espaço.

A tendência não é nova. É uma releitura do brutalismo de Artigas, aquele carinha que projetou a facukdade de arquitetura de São Paulo. A tal da verdade dos materiais aparece com o uso de concreto e linhas muito retas. Está inclusive na moda na decoração. Uma alternativa aos rococós dos anos 40. Ao mesmo tempo, no cenário nacional, uma resposta à busca do que seria um utopia social em razão do que seria a nossa identidade nacional em um cenário cada vez mais industrializado.

Superfícies e imagens onde mora o concreto mas não a natureza e pessoas. Diferente daquele brutalismo das periferias que costumam chamar de autoconstrução. Teoricamente, perfeito. Esteticamente, perfeito. Mas logo as rachaduras hãod e aparecer.

Tem dois conceitos nesse projeto, um estético e outro técnico. O primeiro é que buscamos uma arquitetura sóbria e discreta, para não competir com o cartão-postal, que ficasse como pano de fundo, dependendo do ângulo por onde se olha, mas ao mesmo tempo forte, com presença, daí esse aspecto de monolito. O outro ponto é que é um projeto de infraestrutura, que vai abrigar todas as máquinas de ar condicionado, por exemplo.

Martin Corullon, do Metro Arquitetos Associados

Reinvenção política e coletiva de mulheres negras em nova geração

Originalmente publicado em 06.07.2021 pelo Instituto Ibirapitanga por Moa Valle.

Jaqueline Fernandes, diretora geral do Instituto Afrolatinas | Créditos: Mídia Ninja.

Blogueiras Negras. Em pé, da esquerda para a direita: Jessica Ipólito, Ilka Guedes, Ana Mesquita, Gisele Rocha, Jéssica Dandara; sentadas da esquerda para a direita: Charô Nunes, Larissa Santiago e Viviane Gomes | Créditos: Wellington Silva.

Os anos 2000 e 2010 foram marcados, em curva crescente, pela profusão de movimentos e nascimento de novas organizações, que, beneficiando-se das novas tecnologias, promovem a renovação e continuidade do pensamento e ação das mulheres negras no Brasil. Exemplos dessa realidade, Instituto Afrolatinas e Blogueiras Negras, muito além de serem notáveis jovens organizações, representam pontos de partida de uma nova geração de movimentos, herdeira direta do fortalecimento da ação coletiva de mulheres negras entre as décadas de 80 e 90. Desde seu início, a atuação dessas duas organizações aglutinou e ampliou a capacidade e alcance das iniciativas mais recentes e inovadoras de mulheres negras.

Afrolatinas nasceu como um coletivo de jovens negras periféricas do Distrito Federal, para dar vida, em 2008, à primeira edição do Festival Latinidades, uma plataforma de multilinguagens que impulsiona as trajetórias de mulheres em diferentes campos de atuação. Hoje considerado o maior festival de mulheres negras da América Latina é um importante espaço de empoderamento, atuando com formação política; qualificação técnica e intelectual; oportunidades no mercado de trabalho, em especial na cadeia produtiva da cultura e das artes; e fortalecimento de redes. Ao longo de 13 anos, o Afrolatinas atuou em articulações com Geledés, Criola, CEERT, Rede de Mulheres Afro-latino-americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora, Instituto Cultural Feira Preta, AMNB  — Articulação de Mulheres Negras Brasileiras, Conajira — Comissão Nacional de Jornalistas pela Igualdade Racial, Associação Nacional de Profissionais do Audiovisual Negro, Ficine — Fórum Itinerante de Cinema Negro, entre outras, atualmente também integrando a Coalizão Negra por Direitos.

Carro chefe da atuação do Afrolatinas, o Festival Latinidades, foi diretamente responsável pela divulgação e fortalecimento, no Brasil, do 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela, tendo o instituto atuado para a criação e sanção, em 2014, da data como lei. Além do festival e seu impacto em uma nova cena cultural, artística e política das mulheres negras, o Afrolatinas atua na articulação e fortalecimento de diferentes saberes, nas artes, na cultura e na educomunicação. Atualmente Instituto Afrolatinas, a organização se utiliza de metodologias disruptivas para atuar nos temas do empreendedorismo, geração de renda, produção, gestão cultural, políticas públicas e empoderamento de mulheres e meninas negras em especial.

Apesar de desafiador, o ano de 2020 foi de expansão das ações do Afrolatinas. O instituto realizou a 13ª edição do Festival Latinidades em formato online e o Latinidades Pretas, ação colaborativa entre Afrolatinas e Feira Preta, de contribuição para a redução dos impactos econômicos da pandemia. Formou junto a seis outras organizações a Coalizão Éditodos, para dar suporte a empreendedoras negras periféricas no nível nacional. Neste ano, a organização também estabeleceu sua sede — a Casa Afrolatinas — ambiente de cibercultura com oferta de cursos, espaço e operações tecnológicas na comunidade  do Varjão, periferia do Distrito Federal.

Em 2021, o Afrolatinas irá voltar seu suporte a 150 empreendedores criativos LGBTQIAP+ e está agora às vésperas da 14ª edição do Festival Latinidades, apoiada pelo Ibirapitanga, tendo a “Ascensão negra” como tema. O conceito faz parte de uma trilogia iniciada em 2020, quando o Latinidades abordou “Utopias negras”. Fundadora do Instituto Afrolatinas e do Festival Latinidades e diretora geral da organização, Jaqueline Fernandes comenta que a intenção foi “alimentar as utopias negras como forma de abrir caminhos, de negar o imaginário racista e o espaço que ele quer nos reservar na sociedade.”

Jaqueline conta que o tema de 2021 segue a mesma linha:

“Na minha forma de ver, o tema Ascensão negra se conecta com o momento em que estamos vivendo pela necessidade de seguir exercitando nosso imaginário, refletir e questionar o que significa ascender e prosperar em um sistema fundamentado e sustentado pelo racismo estrutural. Queremos trazer junto com o tema perguntas como: O que é ascensão? Mobilidade social e econômica? Conexão ancestral? Saúde holística? Espiritualidade? Destravar memórias de sucesso e ocupar novos espaços? Olhar para dentro? Todas as respostas podem conviver em harmonia e até se complementar.”

Ainda de acordo com Jaqueline, a trilogia propõe o exercício de descolonizar imaginários. A série se concluirá em 2022, quando o marco do 25 de julho completa 30 anos e o Festival Latinidades 15, uma temporalidade que confirma a iniciativa como o meio de um caminho criado.

Na virada da década de 2000 para a de 2010 foi criada Blogueiras Negras, comunidade comprometida com as questões de gênero e raça, que reúne e estimula a produção de conteúdo para veículos de comunicação independentes produzidos por e para mulheres negras. Lançada em 2013, por Charô Nunes, de São Paulo, e Larissa Santiago, da Bahia e residente em Pernambuco, Blogueiras Negras atualmente reúne produções com 400 autoras e 1.300 textos. É fruto da Blogagem Coletiva da Mulher Negra, iniciativa organizada para motivar a produção de textos de mulheres negras, a princípio relacionados a duas datas — o 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra e o 25 de Novembro, Dia Internacional de Combate à Violência Contra as Mulheres. Este processo revelou a existência de uma vasta produção de textos realizada por mulheres negras, antes dispersa na internet.

A partir da criação de Blogueiras Negras, essa produção ganhou um espaço de visibilidade, preservação e fomento à memória, desdobrando-se na construção de redes colaborativas de comunicação conduzidas por e para mulheres negras com diversas organizações.

Assim, Blogueiras Negras hoje compõe diferentes redes, como Me Representa, Rede de Ciberativistas Negras, Rede de Mulheres Afro Latino-americanas, Afrocaribenhas e da Diáspora, Caribenhas e da Diáspora, Rede de Mulheres Negras do Nordeste, Rede Transfeministas de Cuidados Digitais. Recentemente a organização participou da articulação e do lançamento do Manifesto da Mídia Negra, que envolveu organizações deste campo em todo o país.

A atuação de Blogueiras Negras se espraiou, extrapolando o espaço circunscrito ao ciberativismo para dialogar com a pesquisa acadêmica, integrando grupos de pesquisa sobre economia política da comunicação e também da cultura digital.

Desde 2019, Blogueiras Negras conta com apoio do Ibirapitanga voltado a fortalecer a comunicação como contribuição dos movimentos de mulheres negras nos processos emancipatórios brasileiros. A partir do apoio, Blogueiras Negras atuou no seu desenvolvimento institucional, para consolidar sua autonomia, posicionando-se como uma ferramenta de mídia negra que colabora para a preservação do legado político das mulheres negras brasileiras.

Refletindo sobre a estrada percorrida e esse novo momento, as Blogueiras Negras afirmam:

“Nós completamos em 2021 oito anos de existência. Dentro desse tempo, nós havíamos chegado até aqui apenas com nossos esforços, recursos humanos e financeiros. Pela primeira vez apoiadas [por Ibirapitanga, entre outras organizações], conseguimos construir e consolidar um planejamento voltado a construir Blogueiras Negras como o legado de comunicação do movimento de mulheres negras.”

Elas pontuam ainda a importância do fortalecimento institucional para o enfrentamento sistemático ao racismo, entendendo suas demandas específicas enquanto parte do avanço do movimento de mulheres negras.

Em 2020, a organização colaborou com os processos de comunicação sobre a pandemia, realizando a série a temporada do BNcast “Coronavírus nas Periferias” em parceria com Rádio Aconchego. No mesmo ano, realizou os minicursos online Autonomia&Memória, que busca evidenciar o papel da comunicação nos movimentos de mulheres negras. As lives de formação contaram com a participação de Ana Flávia Magalhães, Rosane Borges, Aline Djokic, Natália Neris e Thiane Neves Barros.

Desenvolvendo a experiência de produção de podcasts, Blogueiras Negras realizou a temporada “O legado da comunicação no movimento de mulheres negras” do BNcast, com 8 episódios de diálogos com mulheres essenciais na construção e difusão de outras narrativas.

Como elos entre gerações de movimentos, Instituto Afrolatinas e Blogueiras Negras, em sua recente trajetória, carregam e reinventam a tradição de atuação política coletiva de mulheres negras. Ao construir para ela novos sentidos, ampliam horizontes de existência feminina e negra, num exercício constante de imaginação e prática de uma outra sociedade.

Breve reflexão sobre identidades entrelaçadas

Tenho visto mulheres negras ressaltar que vão escrever sobre o que acabaram de dizer, sobretudo quando se trata de ideia ou arranjo inovador. Entendo perfeitamente do que se trata, afinal nosso pensamento têm sido usurpado pela branquitude e em muitos casos, mal compreendido por nós mesmas.

Quero fazer o mesmo exercício aqui sobre isso, a diferença é que vou pensando enquanto escrevo. É meu modo de apresentar ideias, ainda que de maneira empírica. Nesse caso sobre a identidade e suas perspectivas, que algumas pessoas têm explicado de outro jeito, como lugares de fala.

Esses lugares de trânsito modificam também o corpo que atravessam e ao mesmo tempo que são atravessados. Porém, são como molduras. Quero falar de algo inferior que trata do interior desses corpos, das próprias características e física que os compõe. Não é sobre estar, mas sobre o estágio anterior do ser.

Preciso dizer que se você tem uma televisão, gosta de ciência, tem tempo e dinheiro para assistir televisão à cabo, além de um pouco de curiosidade para se interessar sobre astrofísica mas preguiça e ou falta de tempo e aptidão para estudá-la de fato, talvez se interesse por documentários sobre ciência como eu. Talvez conheça o símbolo nerd supremo, Neil deGrasse Tyson.

A estrela apresenta Cosmos, uma série muito bela em que se questiona qual será o caminho da humanidade daqui para frente. Tyson pega o bastão de Sagan, o apresentador da série original e supostamente um dos maiores cientistas do século, com paralelos que são inclusive contados na série.

Tyson é tão encantador que foi chamado de o astrofísico mais sensual do mundo. Ele faz com que por um segundo a gente acredite que a humanidade vai tomar um rumo de prosa diferente. Parar de jogar gás carbônico na atmosfera, usar agrotóxicos, respeitar as abelhas. É como se pudéssemos respirar ar puro por um segundo para depois acordar.

Porém… Há um detalhe que ainda não vi ninguém falar na biografia do cara, as acusações de violência sexual. A cientista e assistente Katelyn Allers conta ter sido submetida a uma interação não consentida, com o astro tocando uma tatuagem de maneira não apropriada. Porém há muito mais. Tchiya Amet El Maat acusa Tyson de ter aplicado um boa noite cinderela.

Esse é um daqueles casos em que a oposição entre oprimido e opressor são evidentes. Um entendimento têm sido cobrado de Tyson, uma vez que costuma usar o ideia de ser negro para entender o motivo de existirem tão poucas cientistas mulheres.

É como se opressor e oprimido estivessem emaranhados por um vetor que não pode ser destruído, como acontece na escala quântica. Como duas partículas geradas conjuntamente, interagindo ou se aproximando de tal modo que o estado de cada uma delas não pode ser descrito de maneira independente, não importa qual a distância entre elas.

Um dos aspectos interessantes dessa relação é que, por mais que se queira, a interferência em uma das partículas do sistema resulta em consequências para o todo. Os físicos têm se debruçado para entender porque isso acontece e como, uma vez que as interefências são sentidas imediatamente por todo o sistema, não importa a que distância as partes estejam uma da outra. Na prática, é como se a informação pudesse ser compartilhada numa velocidade superior a da luz, se pensarmos em partículas separadas por bilhões de anos luz.

Em termos de identidade, temos maior liberdade para imaginar cenários. Como disseram tantas pensadoras negras, não somos uma coisa só. Poderíamos facilmente pensar que a identidade é muito similar a um sistema quântico, em que nossos territórios de existência se aproximam ou não, mas os elementos que nos definem jamais deveriam ser tomados isoladamente.

Esse é um dos maiores compromissos da interseccionalidade, como acontece na vida. Por mais que a gente tente, vem com o pacote completo. Aquela doce figura da mulher branca delicada e oprimida, pode ser ao mesmo tempo uma escravocrata. Aquela mana daora, pode ser ao mesmo tempo uma tremenda de uma capacitista.

Um dos pontos interessantes sobre um sistema schrödingeriano é que ao observá-lo você interfere sobre o mesmo. É abrindo a caixa que a gente descobre se o gato está vivo ou morto, sendo a observação que determina o estado da matéria. O conceito é inclusive usado na criptografia quântica. Esse fenômeno observado na escala quântica pode ser aplicado à identidades emaranhadas, ouso imaginar. É quando a gente olha que as coisas se movem, os privilégios aparecem. Caso contrário, ficam lá, operando como se não tivessem nada a ver com isso.

O machista denominado Tyson é preto, o que não o isenta ou explica nada, muito pelo contrário. Toda e qualquer teoria que busque entender como opera, tem de dar conta de todas as suas facetas. Isso acontece com todo mundo, mesmo quem está nas margens ou fora delas. Como naquele episódio de Cosmos sobre o mundo plano, quando você acredita que uma dimensão não existe por não conseguir acessá-la…. Mas isso é outa estória.

10 referências para assistir “Nós”, de novo e de novo

Quero falar de um cara que admiramos pra caramba.

Jordan Peele transforma quase qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, em cinema da melhor qualidade. Mesmo na televisão. E antes de ver seus filmes, quis saber um pouco sobre seu trabalho ao lado de Keegan-Michael Key, que a gente já amava desde os idos tempos dos Vídeos Divertidos do Animal Planet. E fiquei extasiada com a genialidade de Flicker (Peter Atencio, 2012).

Então é bom começar a contar.

2. Demorou mas as referências estão aqui.

I. DUAS MÃOS. A mão que mexe a colher de chá com a ponta dos dedos nos créditos de abertura é uma marca registrada do autor e indica o tamanho do abismo que separa a realidade tal como conhecemos e aquela imaginada pelo autor. A imagem vem do conto fantástico A pata do macaco e do filme Corra!, o primeiro longa do diretor.

II. DUAS ATRIZES e UM PUNHADINHO DE RACISMO A MAIS. A expressão apavorada de Adelaide Wilson (Lupita Nyong’o) é a mesma de Ola Ray em Thriller (Michael Jackson, 1983). Ao ser perguntado sobre essa referência, Peele disse (ing) que se tratava de uma obra clássica sobre a dualidade e a camiseta é um modo de estabelecer o tom dos acontecimentos. Em tempo, Michael Jackson foi o primeiro negro a aparecer na MTV. Mas o CEO da CBS, Walter Yetnikoff, precisou ameaçar o canal até que exibisse Billie Jean (ing). A emissora alegava (ing) que não era racista e se dedicava a clipes de rock.

Editorial use only. No book cover usage. Mandatory Credit: Photo by Universal/ILM/Kobal/Shutterstock (10162635c) Lupita Nyong’o as Adelaide Wilson/Red ‘Us’ Film – 2019 A family’s serenity turns to chaos when a group of doppelgängers begins to terrorize them.

III. DOIS FILMES DE HITCHCOCK. Falando em CBS, ela é a proprietária da marca Além da Imaginação ou Twilight Zone, na qual nossa musa tem trabalhado. O roteiro do piloto da série de 1959 havia interessado Alfred Hitchcock que por sua vez definitivamente inspirou Rod Sterling e Peele. Ele cita especificamente Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958) e Pássaros (The birds, 1963), um filme que não consigo ver até hoje. Só de medo.

IV. DOIS APRESENTADORES NEGROS. Peele não é o primeiro a apresentar Além da Imaginação. Até onde a gente sabe, o primeiro foi Forest Whitaker em 2002. Até aqui nada de perturbador. E seu fosse você deixava como está, o esquete de Key e Peele sobre o Bebê Forest é perturbador demais para ser mencionado.

V. DOIS LIVROS. A gente já sabe que Peele ama terror. E que ama Além da Imaginação. Um dos episódios favoritos do diretor e dos fãs da série é da série clássica, Imagem no espelho (Mirror image, 1959) e fala justamente do tema do duplo. Se você também morre de medo disso não deixe de ler O duplo (Fiódor Dostoievski, 1846) e O horla (Guy de Maupassant, 1886).

VI. DUAS CAMISETAS. As camisetas Howard e Thó respectivamente usadas por Gabriel “Gabe” Wilson e Zora Wildon são uma referência à uma universidade negra história e à expressão que significa “qualquer coisa” ou “tanto faz”.

VII. DUAS MÚSICAS. Além da chave reserva do lado de fora da casa, o filme mostra outras branquices. A dualidade entre as duas famílias é marcada pela trilha sonora com Good vibrations (The beach boys, 1966) e Fuck tha police (N.W.A.,1988).

VIII. DUAS INFÂNCIAS. O filme Esqueceram de mim (Home alone, John Hughes, 1990) é citado com tom de escárnio e lança uma pergunta: porque Peele fez isso? Bem, Adelaide é uma criança da geração X e tem quase a mesma idade do diretor e de Kevin McCallister. Nesse detalhe que reside a chave do sucesso (ing). Os dois filmes falam de uma casa invadida. Só que apenas em apenas um deles as crianças precisam se animalizar para sobreviver.

IX. O DIABO MORA NOS DETALHES. A tesoura é um símbolo de dualidade. A luva em uma das mãos e a cor vermelha dos macacões é uma referência à Michael Jackson, “o santo padroeiro da dualidade” segundo (ing) o Pop Sugar. O detalhe é a roupa branca (ing) de Adelaide fica quase que completamente manchada de vermelho quando o filme acaba.

X. DOIS MENINOS. Essa não vou contar, até mesmo porque eu mesma não percebi. Mas repare em Jason e seu duplo, Pluto. E se você não botar reparo em nada, volta aqui (ing).