Cultura & Sociedade

Por essa eu não esperava: Alfred Stevens e a vagabundagem

By May 4, 2012 No Comments

Esse é o mês do projeto #AllStevenson mas uma vez por semana, só para aliviar, vou dar umas escapulidas. O assunto da vez é uma surpresa dentro da surpresa: um quadro aparentemente atípico do belga Alfred Stevens (1823/ 1906), conhecido por retratar a vida, a psiquê e o figurino das mulheres ricas e bem vestidas dó século XIX.
Seu recorte é muitíssimo específico: a mulher burguesa. Um trecho da vida de Emma Bovary provavelmente cairia muito bem aqui porque o mote é o tédio e o peso da seda que recai injustamente sobre os ombros femininos. Mas isso não vi logo de cara. Ouvia apenas o farfalhar das saias que caracterizam uma “condessa”, como em The Physician And The Saratoga Trunk. Para mostrar isso, escolhi 3 obras magníficas: a Fita Azul, O banho e A máscara japonesa. Olha que delicinha…



Por um tempo olhei para essas obras de forma bastante equivocada. Ficava na superfície até que a coisa foi decantando dentro de mim. A mulher de Stevens é muito mais que suas roupas ou sua aparente frivolidade. Uma pista foi o desenho de suas mãos, por vezes tão farfalhantes como as pesadas estruturas que lhes emolduram o andar. E quando estava me acostumando a essa mulher, um tantinho menos rasa, encontrei um quadro que lhe confere profundidade a essa mulher, sempre tão leve…

O que se chama de vagabundagem fala da repressão à vagabundagem na França de 1850, ano em que os desempregados que perambulavam de vila em vila e é claro, os vagabundos, são impedidos de votar. Coloca a mulher burguesa como alma caridosa que se deixa ficar no segundo plano para ajudar aos pobres. Ao contrário de outros quadros,  busca explicitamente atribuir substância aquilo que é apenas aparente. A esmola não vai mudar o destino dessa família, apenas amainará a consciência do próprio expectador.
Ainda assim, mais uma vez e a despeito de tudo, o centro da ação é a burguesa. O tiro parece ter saído pela culatra. O sujeito se apequena diante da pretensão de uma boa alma que luta em vão contra os desmandos de um governo tirano e cruel que criminaliza a pobreza. Que o digam a mulher indefesa e seus filhos. Mas… Será justamente isso que Stevens quer denunciar? Espero que sim.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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