Cultura & Sociedade

Racismo: Adivinhe quem vem para jogar

By December 8, 2012 13 Comments

É claro que estou falando sobre o filme, só que na vida real.
Dia desses estava pensando sobre o modo como o roteiro de Adivinhe quem vem para jantar (com Sidney Poitier, 1967) evidencia que o único motivo para a família da namorada branca não aceitar John Prentice (um médico negro de sucesso, rico, bonito, educado, inteligente, etc) é o racismo. Outra virtude é mostrar como o discurso racista, muitas vezes entendido como uma fantasia de pessoas que gostam de ser vitimizadas, pode estar presente nas mentes e nos corações daqueles que (oh) não se consideram racistas.
Na vida real nem sempre o racismo tem contornos tão nítidos.
Predominam situações em que permanece velado e inominável, uma de suas facetas mais cruéis. Por exemplo, quando não somos atendidos de forma correta, somos assassinados, expulsos pelos processos de gentrificação das cidades. Esse não é o caso aqui, apesar de todo um chorume de argumentos defendendo que não houve discriminação, foi exatamente isso que aconteceu. A diferença é que dessa vez a personagem não veio para jantar, mas para jogar tênis.
Como na ficção, ainda que muitos resistam em admitir, a única explicação para o fato de o Globo Esporte ter feito uma matéria sobre tenistas bonitas e talentosas que ignorou completamente Serena Williams, uma das melhores e mais bonitas do mundo, é o racismo. O único motivo que explica o fato de o programa ter televisionado, sem nenhum critério, a também tenista (loira) Caroline Wozniak fazendo “troça” com as formas da “amiga”, a única tenista a ter sido premiada com mais de 40 milhões de dólares, também é o racismo.
E assim um inconteste ícone de beleza internacional foi ignorado por seu defeito de cor que o filme chama de pigmentation problem. Williams apareceu sem aparecer, tornando-se uma mera citação feita por uma mulher branca que em determinado momento fingiu ser negra numa espécie de blackface. Foi omitida, apagada e esquecida pela imprensa especializada que, mais do que nunca, sabemos racista e sexista. Porque não interessa quem você é. Se não está dentro do padrão eurocentrado de um esporte como o tênis, você inexiste.
Foi assim que o drama de John Prentice, que eu considerava tão distante, se tornou realidade na minha telinha. Serena simplesmente não estava lá e não fez falta para muita gente que está acostumada. Gente que acredita se tratar apenas de uma questão de gosto, essa coisa que não devemos discutir. Gente que se coloca como régua do mundo e não enxerga um tiquinho além do próprio umbigo. Gente que acha que não tem nada a ver com a cor.
Felizmente tem gente que consegue ver um tantinho além.
Na arte e na arquitetura, o vazio significa. Quando o assunto é mídia não poderia ser diferente: toda vez que uma mulher negra deixa de aparecer é feita uma declaração muito poderosa sobre nosso direito de existir além dos lugares que nos são tradicionalmente imputados. Uma declaração que se coloca todos os dias e de modo sistemático a cada capa de revista ou reportagem onde não estamos nós, milhões de mulheres negras, inviáveis e invisíveis.
Isso posto, quero te fazer um convite. Um convite para se sentir não convidado. Imagine que cada capa de revista é uma festa para qual você não é chamado. Agora imagine essa sensação se multiplicando anos a fio, sem levar em conta o quão bonito, bacana, instruído ou legal você seja ou lute para ser. Se me perguntassem, diria que a vivência do racismo é mais ou menos assim, só que pior.
E que cada vez que Serena Williams não é convidada, fica um pouco mais complicado se sentir bem-vinda nesse mundo…

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

13 Comments

  • Iara says:

    Perfeita, Charô! É angustiante viver em um mundo em que se arranja desculpas pra se excluir Serena Willians de qualquer coisa que associe beleza + talento + tênis. Porque se ela não pode estar lá, ninguém mais pode.

  • Charô says:

    Obrigada Iara, alivia saber que muita gente entende o significado desumano dessa ausência. E obrigada pela visita <3 volte sempre!

  • Chorei lendo seu texto, Charô. Puta que o pariu. A gente ainda tá tão longe.
    E você tem razão, é pior no tênis. Em mulheres no tênis, talvez.
    Lembrei de uma das poucas coisas que gostava de ter de marca, na adolescência: tênis. Adidas. Assinados.
    O segundo era Arthur Ashe.
    http://top-10-list.org/2009/11/17/ten-popular-diabetic-athletes/arthur-ashe-%E2%80%93-tennis/

  • B. says:

    Tô manteiga derretida hj, chorei lendo, pqp… Até demorei para vir responder. O final do texto me deu um incomodo tão grande, que ainda estou emocionada… Lembrei da participação da Larissa Januário e Letícia Massula no programa Bem Estar, onde só deram créditos à Lets, pela participação, qdo tudo foi feito em conjunto com a Lara. Ignorar, não citar, não falar é uma agressão tão grande quanto agredir diretamente. Parabéns pelo texto lindo! (e “vamo” tentar parar de chorar aqui…)

    • Charô says:

      Obrigada querida B. Meu intuito era justamente esse, convidar vocês a sentirem o que sinto a cada capa de revista em que não estamos…

  • Leninha says:

    Só um comentário: a imitação de tenistas por outros tenistas é comum nesses eventos e não necessariamente é uma coisa racista já que todo mundo é alvo de todo mundo nessas brincadeiras entre eles

  • Ótimo texto! Parabéns!

  • Charô amada!
    Obrigada por mostrar como os negros se sentem. mesmo. O caminho é longo e duro, eu sei. Mas saiba que a branquela aqui está ao seu lado (e de todos os negros) pra sempre, graças ao poder que você e Lara, especificamente, tiveram para me ensinar.
    Obrigada, obrigada, obrigada.
    Por tirar de algo corriqueiro, que passou em brancas nuvens, uma lição importante para tantos. E num texto tão delicado e comovente, que nos arranca lágrimas e nos leva a habitar a sua pele.
    beijo enorme + abraço de ursa!

  • Alex Rodrigues says:

    Muito bom o texto. Realmente é importante discutir a todo e qualquer momento o racismo. Sou de família negra e já passei por coisas bem ruins, principalmente nas escolas caras que estudei. Felizmente passei por isso sem sequelas.
    Gostaria de convidar vocês e todos que acompanham seu blog para um debate que vai acontecer no dia 13 dez, 2012- 09:00 PM BRT com o Tema “As cotas sociais e raciais devem existir?” nesse endereço:
    http://meevsu.com/confrontation/1115/As-cotas-sociais-e-raciais-devem-existir
    O debate é aberto a votação de todos e a página do pré-debate (para
    votação prévia) já está online.

Leave a Reply