black female holding paper with painted one breast as symbol of cancer
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Sobre as Memórias do Câncer

Desde o ano passado em que participei de uma live sobre o Outubro Rosa, tenho me perguntado como posso me fazer entender quando expresso que não se trata de uma história de superação, de uma metáfora poética, de um querer. Mas sim uma questão de saúde pública perpassada grandemente pelo racismo e outras violências.

Esse é o primeiro ano em que decidi não fazer nenhuma fala pública à respeito, mas sim intimista e verdadeira com o meu momento de vida e com aquilo que penso agora. É preciso que façamos um reviravolta no modo como estamos discutindo o câncer e o Outubro Rosa. Escrevo para quem sabe contribuir com essa discussão. Mesmo aqui, nesse canto obscuro da internet.

O Outubro Rosa não pode mais ser uma data cisgênera, por exemplo. Muito menos podemos nos dar ao luxo de nos perder em distrações esteticamente esvaziadas, entregues à industria da farmácia e da assistência médica. Não vou falar com essas pessoas e com esses propósitos. Quero falar muito mais sobre como atravessamos essa experiência que pode ser tão árdua para mulheres pretas.

Agora que estou lendo The cancer journals, ou Memórias do cancêr em tradução livre. Decidi fazer algo diferente, construir essa memória enquanto ela acontece para que eu mesma possa revisitá-la para além das anotações enigmáticas que tenho usado em meus livros até aqui. Essa é uma das estratégias que pretendo usar daqui para a frente… Um ensaio para a criação consistente e política de memórias.

Estou com o livrinho impresso aqui do meu lado. Vou lendo e escrevendo. Quase que construindo um pequeno fichário de anotações, bem ao estilo de Walter Benjamin quando estudou as passagens de paris. Gostaria de discorrer mais sobre isso, mas por hora acredito que basta dizer que a urgência que ele teve é um pouco parecida com a minha.

Então decidi, mesmo que de maneira solitária, escrever sobre esse processo que para mim significa a retomada da minha escrita e ao mesmo tempo uma oportunidade de me aprofundar na reflexão do que é ser uma mulher negra que convive com o câncer e às ameaças de uma recidiva. Agora que também investigo um tumor na garganta, que espero ser benigno, escrever me faz passar por esse momento de uma outra maneira.

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