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Sobre o luxo do falso poder, Memórias do Câncer

Cada mulher responde à crise que o câncer de mama traz para sua vida com um padrão complexo, que é o desenho de quem ela é e como sua vida foi vivida. A trama de sua existência diária é o campo de treinamento para como ela lida com crises. Algumas mulheres obscurecem seus sentimentos dolorosos cercando a mastectomia com uma aura de casualidade, mantendo assim esses sentimentos para sempre encobertos, mas expressos em outro lugar. Para algumas mulheres, em um grande esforço para não serem vistas como meras vítimas, isso significa uma insistência em que não existe tal sentimento e que nada mais aconteceu. Para algumas mulheres, significa ainda o exame meticuloso por uma guerreira de outra arma, indesejada, mas útil.

(…)

Que essas palavras sirvam de encorajamento para outras mulheres falarem e agirem com base em nossas experiências com o câncer e com outras ameaças de morte, pois o silêncio nunca nos trouxe nada de valor. Acima de tudo, podem estes palavras sublinham as possibilidades de autocura e a riqueza de vida para todas as mulheres.

(…)

Escrevo muito aqui sobre o medo porque, ao moldar esta introdução para The Cancer Journals, descobri que o medo estava em minhas mãos como uma barra de aço. Quando tentei reexaminar os meses desde minha mastectomia, algumas das coisas que toquei foram desespero derretido e ondas de luto – pelo meu seio perdido, pelo tempo, pelo luxo do falso poder. Essas emoções não eram apenas difíceis e dolorosas de reviver, mas estavam entrelaçadas com o terror de que, se eu me abrisse mais uma vez para o escrutínio, para sentir a dor da perda, do desespero, de vitórias insignificantes em meus olhos para me alegrar, então eu também poderia me abrir novamente para a doença. Tive que me lembrar que já tinha passado por tudo isso. Eu conhecia a dor e sobrevivi a ela. Resta-me dar-lhe voz, partilhá-la para uso, para que a dor não seja desperdiçada.


Outro dia ouvi a história de uma mulher que tem chorado todos os dias porque está investigando um câncer de mama. Seu medo é contextualizado também pelo fato de sua própria mãe ter falecido em decorrência da doença. O histórico… E a minha primeira reação foi estúpida e desumana – Porque ela chora?

Ora, porque eu mesma não chorei depois de todos esses anos?

Porque ela deveria apenas fechar os olhos e seguir em frente, como muitas de nós fazemos?

Refleti sobre o que falei. Estava salientando a necessidade de ela correr e se cuidar. Sendo prática, objetiva, racional como dizem… Mas erradamente desconsiderando um aspecto muito importante da equação – a saúde mental das mulheres que sofrem com a ameaça de um câncer, num contexto pandêmico de uma sociedade que impõe a felicidade a todo momento.

Uma felicidade artificialesca.

E talvez seja sobre isso que fala Lorde quando escreve sobre o luxo do falso poder.

“Eu vou dar conta sozinha.”

“Eu vou ser a mesma de antes.”

“Eu vou continuar bonita.”

“Eu não preciso de ajuda e do ombro amigo das pessoas a minha volta.”

“Eu não vou ter medo de morrer.”

“Eu vou seguir trabalhando.”

Por exemplo.

Afinal, por que chorar se há uma chance estatística de 95% de cura?

A escrita de Lorde, cujas instruções de uso falam sobre encorajamento, discorrem sobre esse falso poder no qual muitas de nós nos refugiamos, com alguma razão. Como se o sentir, inclusive o medo, fosse uma fraqueza. Como se pudéssemos ter algum controle sobre o medo. Porque se eu não for forte o bastante, posso morrer.

E isso é parcialmente verdade.

Precisamos ser fortes, mas não a qualquer custo.

Não a todo momento.

A realidade das mulheres negras brasileiras em sua grande maioria não é aquela de 95% de cura. Nós ainda morremos mais. E depois de uma cirurgia, como seguir com orgânicos? Como levar uma vida livre de estresse se não dá para comprar gás? Como é que podemos assegurar a tão querida sobrevivência num país que nos quer mortas? Isso requer força.

Ou seja, não é deslocado dizer que uma mulher negra sobreviveu a um câncer.

Ao mesmo tempo que não podemos acusar quem morreu ou está sofrendo de falta de vontade, de apatia, de vontade de morrer. Porque ser uma sobrevivente, atrelada à ideia preconcebida de que somos ou deveríamos ser sempre fortes, pode inclusive ser uma barreira para que as mulheres possam admitir sem culpa que tem medo e pedir ajuda. Até mesmo para as pessoas mais próximas.

Talvez o mais corajoso diante de uma ameça de morte seja admitir que se tem medo de ficar doente e de ficar doente de novo. Seja chorar para poder se alegrar depois da cura. Para que possamos inclusive acreditar nela e encarar tudo o que vem antes, durante e depois de uma maneira digna, seja chorando ou não pelo medo de morrer.

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