Cultura & Sociedade

Soninha, Marimoon, Fernanda e Edgar: nossas máscaras midiáticas

By August 11, 2012 6 Comments

Imagine se a Marimoon (VJ, 30 anos, falando para um público feminino de 20) começasse a fazer propaganda para o Serra? Seria um susto para um bando de gente em função de sua imagem pública que fala de valores como juventude, rebeldia e até inconformismo… Mesmo que na essência tenhamos um exemplo perfeito de adequação. Bem, a Marimoon da minha época realmente se tornou cabo eleitoral do inimigo: foi essa a sensação que tive quando a descolada Soninha Francine atuou como coordenadora para redes sociais na campanha presidencial do PSDB.
Pois sim, houve um tempo em que Soninha Francine representava juventude, rebeldia e até inconformismo. Achava o máximo ela ter sido professora de inglês, ser apresentadora de TV, VJ. Falava abertamente sobre maconha. Acho que a última coisa legal de Soninha fez foi adotar a bicicleta como transporte público. Até esse momento ela era, como posso dizer, um modelo para a nossa (minha) geração. Num belo dia ela se tornou parceira do Serra. Putz, como é que a gente não percebeu antes? Bem, bastaria ler a biografia da Marimoon e perceber que se trata de uma mulher de negócios voraz, nesse caso uma política voraz.
Foi mais ou menos assim que a Soninha perdeu sua aura de pessoa descolada mas o produto/atributo continua fazendo sucesso na pele de gente como Fernanda Lima e Edgar (ex MTV). Eles emprestam seu corpinho, sua fala e sua descoladice para empresas que andam meio em baixa após o histórico embargo da Anatel: as operadoras de celular. Uma delas até ensaiou uma peça com um dos diretores mas a iniciativa logo deixou de ser vinculada e entraram no ar os descolados de plantão. Especial atenção para Fernanda Lima que tem chamado minha atenção há algum tempo.
Ela anda de bicicleta em com os filhos de forma pra lá de despretenciosa com bastante regularidade mas não hesita em fazer propaganda de carro e de celular. Ainda assim é uma daquelas atrizes que praticamente tem um selo de sustentabilidade social. Ela é jovem, bonita (segundo os padrões midiáticos excludentes) e fala a um público igualmente jovem, bonito e… Descolado. Confere diversão e inocência a um dos modelos mais pérfidos já criados nas grandes cidades, o transporte rodoviário. Faz com que pareça legal andar de chevrolet.
Aqui cabe um parentesis bem grandão. Muitas das práticas de “sustentabilidade” que entendemos como ataque ao capitalismo (andar de bicicleta por exemplo) são na realidade práticas que contribuem para a longevidade desse sistema de coisas. Por isso que faz todo sentido que Fernanda Lima ande de carro e Edgar faça propaganda de celular. Eles são como Marimoon, grandes colaboradores de tudo o que está aí. Só que vendendo um falso verniz libertário, uma máscara midiática.
São como as personas das redes sociais nessa sociedade imagética afeita ao espetáculo. Todos são sustentáveis, despidos de preconceitos, militantes. Mas todos trabalhando no e pelo sistema. Mais uma vez, as armadilhas: achamos que estamos atacando o sistema ao promover adaptãções. As máscaras midiáticas servem bastante a esse propósito e são tão perigosas quanto a indústria dos megaeventos (quem viu a falsidade ideiológica na representação dos brasileiros no fechamento dos jogos olímpicos de Londres e suas blackfaces, máscaras midiáticas?). Assim seguimos no fazer diferente mas fazendo tudo igual. Enquanto isso nos imaginamos tão descolados quanto as máscaras de Soninha, Marimoon, Fernanda e Edgar parecem ser.
Enfim… Bem cada uma ganha a vida como acha o mais correto e aqui, talvez incorrendo em erro, estou a usar uma lupa quando deveria estar num helicóptero. É que de um tempo para cá tenho pensado em como ganhar meu sustento (tenho uma filha e essa questão se coloca todo dia para mim). Indago em como estar nessa sociedade sem contribuir para piorar um panorama que já é apocalíptico. Minha profissão não ajuda (sou arquiteta) e fico me policiando para não trabalhar na construção da câmara mortuária do faraó, metáfora para a arquitetura como servidão.
Porque não adianta plantar árvores para neutralizar a emissão de carbono, urge o radicalismo. Não dá pra ser uma arquiteta verde, sustentável e descolada. É preciso muito mais que isso. Porque, de boa, é a mesma coisa de andar de bicicleta e fazer propaganda de carro. Balzac dizia que toda fortuna esconde um crime. Tenho a mesma sensação do trabalho hoje. E me sinto parte do problema desde que deixei o desemprego voluntário para retomar as atividades de arquiteta.
Uma arquiteta que pensa o capitalismo como um zangão borg: ele nos diz que resistir é inútil e vai aprendendo com nossos erros. Quanto mais a gente ataca, mais ele aprende e se adapta. Enquanto isso, coloca no rosto o sorriso dos descolados, jovens e rebeldes. É muito louco tudo isso né. Espero que esse texto seja visto como imperfeito, cheio de erros, um rascunho. Há tanto que não entendo, ainda assim preciso falar.  Ou seja, ainda vou incomodar e muito vocês com essas questões…
Um abraço amigo.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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