Cultura & Sociedade

Substâncias ativas: racismo, sexismo, gordofobia, sentimento de classe e invisibilidade.

By December 18, 2012 No Comments

Quando o médico José Soares Menezes receitou Cadialina para Adriana Santos fiquei muito indignada. Para emagrecer, ela deveria escolher entre o temeros no food (prática do jejum) e a colocação de cadeados em “sua boca, outro para a geladeira, outro para o armário, outro para o freezer, outro para o congelador e outro para o cofre de casa”.
Na época pensei em como essa estória tornou palpáveis os “preconceitos e discriminações que, de tão naturalizadas, se tornaram invísíveis nas práticas das instituições e dos profissionais de saúde“. Mas, apesar de o caso ter sido destaque, em nenhum lugar se falou abertamente sobre a combinação potencialmente letal de substâncias ativas que presentes na receita médica: racismo, sexismo, gordofobia e sentimento de classe.

Somente alguns messes depois percebei que o episódio, que já é de uma gravidade ímpar, também fala sobre corriqueira a invisibilidade dessas substâncias na imprensa.

A maneira como a polêmica (para não dizer outra coisa) Williams/Wozniacki foi noticiada por aqui evidencia um panorama digno de filme de terror. O Yahoo Notícias, por exemplo, começa seu texto assumindo que tudo não passou de uma piada. Já o Globo Esporte, ao cobrir a partida onde a imitação foi feita, citou uma das melhores tenistas da atualidade como uma simples anedota.
Outro caso recente, a acusação de racismo contra Luis Salem. Não vi uma única entrevista com as vítimas. Por outro lado, muitos veículos cederam espaços para que o ator argumentasse que o tom foi respeitoso, que se tratou de uma simples brincadeira. Alguns veículos chegaram a reproduzir a nota em que o acusado defende a tese de que foi apenas mal interpretado.

Mas o que podemos fazer?

Constatar, entre outras coisas, que o jornalismo tem sido instrumento de resistência às políticas afirmativas. Perceber que temos praticado um debate tecnicamente qualificado mas nem sempre favorável ao enfrentamento do racismo. Entender que debate segue insensível às violências sofridas pela população afrodescendente, pela população feminina, pela população obesa.
Superar a resistência em enxergar o racismo, o sexismo e a gordofobia como práticas institucionais, corporativas e econômicas bastante estabelecidas. É urgente e pra ontem o entendimento de que é justamente nessas esferas que o preconceito precisa ser discutido e nunca em detrimento da discussão em âmbito privado.
Também é preciso ensinar que a abordagem dessas temáticas não pode ser construída por meio da opinião e do senso comum. Que o debate não deve ser um cabo de guerra para decidirmos se somos racistas, gordofóbicos, sexistas ou não. Que devemos vencer a resistência em falar abertamente sobre esses preconceitos.
A parte triste é que muito de nosso esforço ainda será pelo reconhecimento da existência desses preconceitos, quase sempre perdendo oportunidades para o enfrentamento e a construção de soluções…

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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