Cultura & Sociedade

Suburbia: o controle das mentes e dos corações

By December 14, 2012 No Comments

Ainda que a pobreza e a miséria material sejam facilmente perceptíveis e reconhecíveis, as causas e as precondições que as tornam possíveis e socialmente legitimadas (grifo do autor) não o são.
Esta é razão última do fato historicamente invariante de que toda desigualdade existencial , política e material tenha de ser acompanhada por mecanismos simbólicos que mascaram e tornam opacas suas causas sociais.
A reprodução da desigualdade material em todas as suas dimensões – econõmica, cultural e política – pressupõe o sistemático desconhecimento/encobrimento produzido e reproduzido simbolicamente, de suas causas efetivas.
Jessé de Souza in A ralé brasileira

A pervesão das cotas

Considero Nina Simone uma das personalidades mais importantes e fundamentais do século XX. Ainda assim, sempre me incomodou um de seus versos mais famosos. Lá pelas tantas em Mississippi Goddam, faz toda a diferença dizer Just give me my equality ao invés de algo como I’ll take my equality. E se me permitem dizê-lo, adicionaria de bom grado algo como by force.
Foi exatamente sobre isso que pensei ao ler as palavras de Joyce Ribeiro sobre a representação politicamente correta do negro na televisão brasileira. É como se pervertessem completamente o conceito de cotas, que passa a excluir toda uma população ao se tornar um crivo por onde passa apenas um herói ou heroína que servirá de modelo para todos os outros.
A celebração desses heróis será incentivada de modo a construir um sistema de exclusão que se alimenta de um punhado de exceções. E talvez o mais importante, é por esse mecanismo que serão criados discursos inflexíveis de controle social que interferem diretamente na maneira como entendemos e vivemos o mundo. A televisão serve muito bem a esse propósito, e adivinhem, Suburbia não foge à regra.

O retrato da mulher não supera o modelo de A Escrava Isaura

Já falei aqui sobre a rivalidade entre Rosa e Isaura,  de A escrava Isaura, televisonada em 1976. Quase 40 anos depois, Suburbia não supera esse modelo e consegue ser bem pior. A protagonista é construída como uma Penélope Charmosa, uma Cinderela. É ingênua, infantilizada, desprovida de ambições (até aprendeu a escrever, mas só o suficiente para assinar os documentos) e subserviente em sua sexualidade e modos.
A antagonista é a puta, claro. Tem um visual extravagante, com especial atenção para a maquiagem carregada e os cabelos compridos e alourados. Vive carregada à tiracolo pelo ex-namorado de Suburbia, e quando não está com ele, se prostitiu nos palcos no baile funk. Veja, estou usando o vocabulário de slut chaming de caso pensado, porque é disso que fala a representação da personagem.

Dani Ornellas dá vida à evangélica Vera, o retrato de uma jovem mammy two shoes da vida real.

Dani Ornellas dá vida à evangélica Vera, o retrato de uma jovem mammy two shoes da vida real.

As outras mulheres, quando não são putas ou mocinhas, são atualizações do estereótipo da mammy two shoes que você conhece dos desenhos de Tom e Jerry. Desprovidas de sexualidade, estão envolvidas nos afazeres de casa e da família. Tem seus cabelos quase sempre presos e jamais usam maquiagem. Como deve ser, após a virada dos quarenta.
Representações que falam como toda mulher deve ser e sobretudo de como toda negra deve ser.

Sobre o samba e o funk

Suburbia não retrata apenas a mulher en chiaroscuro.
Quaisquer tons de cinza são omitidos. O suburbio é descrito como um lugar sereno e feliz onde as crianças brincam nas ruas. No minuto seguinte se torna palco de disputas entre marginais e a polícia. Foi assustador, face ao recente reconhecimento do genocídio da juventude negra, ver na televisão jovens negros sendo baleados à queima roupa. É assim que se dá a naturalização do preconceito.
A produção também lança um olhar cruel sobre as manifestações culturais da negritude, bem naquele estilo de um é bom e outro é ruim. O samba seria a cultura das senhorinhas, da velha guarda, da ingenuidade. o funk não é retratado como a cultura da falta de inteligência mas corresponde à sexualidade descontrolada,  ao porte darmas e ao modo como o tráfico conquista mentes e corações. É o ópio da juventude.

Conclusões

Deveríamos celebrar por estarmos finalmente na televisão, já que a maioria do casting é negro. Infelizmente está provado que apenas isso não basta já que o autor tem um olhar paternalista e viciado sobre a negritude, um olhar que muitos não hesitariam em classificar como racista. Ao invés de uma trama negra, temos um desfile desnecessário de estereótipos servindo ao discurso do controle social e naturalização das desigualdades, do racismo.
O Black Feminists UK publicou um texto chamado Does an Increasingly Mixed Race Britain Mean That British Society is Postracial? Se adaptassemos a pergunta para nossa realidade indagando se o aumento de atores negros na televisão corresponderia a uma sociedade mais inclusiva, a resposta dificilmente seria positiva. O que está acontecendo é justamente o contrário! Além de não nos representar, há todo um esforço para controlar nossas mentes e corações.
E vou te contar, é muito triste de ver tantos talentos e recursos serem desperdiçados dessa forma. Agora é torcer pela carreira dos atores envolvidos. Também é muito desanimador ver se concretizatem minhas primeiras impressões sobre a série que poderia ter sido tão diferente! E talvez o mais importante, é provável que demore um tempo para fazerem outra série dessa natureza.
E pá, quem duvida que, se a próxima produção negra acontecer em dez anos, vai ser igual? Snif.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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