Arte

There's poison going on: O ovo da serpente, 1977

By June 14, 2012 No Comments

Estou um pouco atrasada nos posts. É quase duas da manhã e somente agora consegui ver O ovo da serpente, 1977. É o primeiro filme colorido que vejo de Bergman. Não que isso seja importante mas… Tive a impressão de que a fotografia perdeu muito em qualidade mesmo que a direção de arte esteja perfeita. Esqueçam a poesia imagética de Quando as mulheres esperam aqui o assunto é outro.
Sobre a escolha do elenco, não foi uma boa escolha escalar David Carradine (que só agora descobri morto por asfixia erótica) para o papel principal, um trapezista norte-americano subempregado e alcoolizado na Berlim da década de 20. Mas o problema não é todo da interpretação, a personagem merecia um pouco mais apesar de um começo promissor: encontrar o irmão suicida com um tiro na boca.

Abel coloca uma dinheiro na boca de um funcionário de um cabaré. O casal ao lado presencia a violência com prazer.

Manuela mostra empatia por Abel

O anjo não é azul

Liv Ullmann, tadinha, é mulher demais para papel de menos: interpreta Manuela, uma cunhada que  busca desesperadamente permanecer ao lado de Abel e mostra-lhe alguma simpatia. À noite, adivinhem, trabalha num cabaré admiravelmente pulguento onde anjinhos de cachos dourados e bochechas rosadas são interpretados por anões gordinhos. E não, ela não protagonisa um número digno de nota e essa é a nota. A gente imagina que nesses lugares sempre havia um Anjo Azul mas…
Por sua frieza, é um filme imperdível que faz parte de uma categoria especial, desses que buscaram entender como e porque o nazismo fez gato e sapato de uma Alemanha supostamente democrática. Estamos em 1923, Hitler fracassa em tomar o poder., um maço de cigarros custa mais de um bilhão de marcos. A violência se tornou uma constante. Pessoas são espancadas nas ruas, come-se carne de ratos e de animais domésticos. Até os padres cuja profissão deveria ser o conforto dos fiéis, estão com pressa e dúvidas demais para ajudar a quem precisa.
Bergman vai ao âmago da questão: o caráter tragicômico da sociedade alemã: a aceitação de dinheiro como moeda de troca para tudo e qualquer coisa, o antissemitismo, blackfaces representando músicos de jazz, desemprego, tabus alimentares, inflação galopante, miséria, fome, as condições do armistício, o sexo como objeto e…Um medo paupável que guia as personagens. Abel teme a morte, Manuela a solidão. A cidade se torna território de guerra pela sobrevivência. A certa altura alguém diz “there’s poison going on” e define o filmeE quem sabe os tempos em que vivemos.

I know that the catastrophe could be here in a few hours.They say the rate of exchange for the dollar is five billion marks. The French have occupied the Ruhr. We just have paid a billion in gold to the British. On every damned job there are Bolshevik agitators. In Munich, Herr Hitler is preparing a putsch with thousand of starving soldiers and madmen in uniform. We a government that doesn’t know which way to turn. Every one is afraid, So am I. I can’t sleep of fear. Nothing works properly except fear.

Fiquei um tantinho incomodada com o olhar moralista de Bergman acerca do modo como as pessoas expressavam sua sexualidade. Num momento do filme aparece a figura de um burrico em cima do qual piscam lâmpadas na boca e no ânus. No cabaré atores trocam os papéis ao representar uma noite de núpcias. Para mim o único problema é a sexualidade atrelada a comportamentos violentos e ao dinheiro, ai sim a coisa muda de figura.
Veja, não é uma questão moralista é apenas um observação feita à objetificação do corpo e das vontades. Exemplo disso é a prostituta dizer que Abel poderá ter o que quiser porque pagará em dólar. Outro momento extremamente sensual (num péssimo uso da palavra) é o espancamento do proprietário do cabaré pelo que parece ser uma proto célula da SS. Ali vemos um terrível prazer sensual no rosto daqueles loucos homens de uniforme. Talvez seja sobre isso que falava Robert Louis Stevenson.
É claro que o roteiro também pesa a mão ao reportar experiências médicas cometidas na cidade. Mas se a gente considerar que estamos apenas há dez anos do nazismo, toda e qualquer loucura parece plausível. Essa é a massinha de modelar com a qual fizemos duas grandes guerras. Qualquer retrato sobre a desgraça é benvindo ainda que não esteja entre os filmes mais geniais e deliciosos do diretor sueco.
Não que tenha falhado completamente em demonstrar sua tese de como o indivíduo se alinha a uma sociedade totalitária. Mas o filme obtém mais sucesso ao delinear com precisão as condições necessárias para a conversão de uma sociedade democrática  em massa de manobra nazista. Se é que já não o era tudo aquilo que representa o filme, sem saber. Daí o medo que sufoca a cidade e a impede de respirar ar fresco, sempre lembrando da célebre frase do diretor: demons don’t like fresh air.

E tem mais

E onde estão os homens bons? Em outro filme oras. Se me perguntassem que título faria uma boa dobradinha com O ovo da serpente recomendaria sem pestanejar o excelente (e lindo e flúido) Fita Branca, 2009. A premissa é exatamente a mesma mas dessa vez a estória de desenvolve no interior da casta e puritana Alemanha. Imperdível. E para quem está com tempo e disposição, o excelente artigo The Serpent’s Egg” (1977) – From (the Alive) Human Soul into a Compulsive Socio-Political Action – Bergman’s Analysis of the Fascization of Human being no Acting-out Politics.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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