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Transfobia mata. Vocês sabem disso né?

Que pelo menos assumam que estão se alinhando à violência que tanto dizem combater. Racismo e transfobia são arestas consecutivas da mesma figura geométrica, não adianta acertar de um lado e deixar o couro comer do outro.

Transfobia mata. E vocês sabem disso, não é amigas cisgêneras pretas?

Preocupa como algumas discussões ainda impedem a construção de um feminismo preto interseccional verdadeiramente inclusivo, lá fora dos textos. Mas o que adianta dizer que transfobia mata, vocês sabem disso não é? Nós podemos ser atacadas na rua por sermos pretas, mas nunca por sermos cisgêneras, já pensou nisso? Mas no final, por motivo A ou B, é mais uma preta no chão?

Por isso, coloco na nossa conta como partícipes da cisgeneridade, a necessidade de retonar alguns posicionamentos públicos sobre o que as TERFS (mulheres cisgêneras que se acreditam feministas, partindo de um ponto de vista supostamente radical e que são na realidade e no fim de tudo transfóbicas) seguem falando e mais que isso, fazendo.

Transfobia mata, é método.

A lâmina vai ficando cada vez mais afiada e faminta.

Certamente mais ou menos dia, nos alcancará como tem alcançado todos os dias quem não se encaixa no padrão branco, heteronormativo, sexista, cisgênero, rico, elitista, acadêmico, jovem, magro, especista, ocidentalizado, europeu e judaico-católico cristão de humanidade.

Porque ainda estamos discutindo a mentira da socialização masculina, a idéia violenta de uma mulher biológica? Meus deus, vocês estão colocando as coleguinhas e a si mesmas em um lugar que nós mulheres pretas temos lutado historicamente para sair. É isso mesmo, somos mulatas e mulas? Marcadas pela capacidade de produzir mão de obra num sistema ainda escravocrata e capitalista? Se tá bom pra vocês, me incluam fora dessa por favor.

Há quantas anda a sua desconstrução companheira, você que tanto se incomoda com os feministos e os antirracistas de ocasião? Ainda trocando os gêneros porque escapuliu? O que você faz depois que acontece? Será que entender que transfobia mata é um assunto que pode ser deixado para depois? Uma pergunta que também estou fazendo para mim mesma, porque sempre terei o poder concedido à cisgeneridade na mão.

De que lado está partindo a violência?

Afinal vamos abrir mão desse privilégio afinal para evitar a morte de uma preta, seja lá por que motivo for, seja racismo ou transfobia? Ou será que vocês não compreendem que no mercado da violência, mesmo mulheres brancas podem custar tão barato quanto a carne negra, por serem travestis, jogadas compulsivamente às margens da sociedade?

Aliás de que adianta falar que transfobia mata, vocês sabem né?Estava lendo um artigo em que Bia Bagagli se dedica a explicar como é absurda a idéia de que existem mulheres de verdade, enquanto todas as outras são perigosas porque enganam a sociedade, estuprando mulheres através da apropriação de um ideal de mulher. Afinal, quem está matando minha gente? De que lado parte a violência?

Do transfeminismo ou da sociedade em que vivemos e a aliança que fazemos com a maldade quando nos calamos e compactuamos com práticas excludentes? Porque perguntar não ofende, como diziam os mais antigos. Será que uma mulher preta cisgênera é incapaz de entender o que significa ser considerada perigosa a ponto de fazer o mesmo com outras mulheres?

E o Outubro Rosa que passou? Lutamos tanto para que fosse menos branco mas e quanto ao fato de ser completamente cisgênero? Não é apenas um conceito. É certamente uma prática. Que pelo menos assumam que estão se alinhando à violência que tanto dizem combater. Transfobia e racismo são arestas consecutivas da mesma figura geométrica, não adianta acertar de um lado e deixar o couro comer do outro.

A defesa parcial da vida não é direitos humanos

Não podemos defender um mundo para algumas e não para todas.

Considerar apenas algumas mulheres não é feminismo.

A defesa parcial de algumas mulheres negras não é feminismo negro.

Aqui, se você é incapaz de pensar na pluralidade de mulheres, pense em como a ideia de uma mulher bbiológica também é racista. Ou você não tinha pensado nisso camará? Se você acredita que ser mulher é ter uma buceta no meio das pernas, que busque compreender o que significa ser uma criança preta num mundo racista. São animalizadas, e aqui uso um termo especista para me fazer entender, porque nós somos também.

Da mesma forma que animalizamos outras mulheres.

Num mundo transfóbico, as travestis serão mortas primeiro.

E algumas de nós estarão na primeira linha de tiro.

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