Arte

Trends 2012: Pintura menstrual

By December 9, 2011 No Comments
Reclama-se aos quatro ventos do estado bundalelê da arte pós-moderna ao sabor do vento. A reflexão é preterida caso exista a mínim via de interação imediata com a obra. Quanto maior a familiaridade melhor. Por exemplo, se você foi educado sob a tradição judaico-cristã, provavelmente reconhecerá imediatamente a imagem de um homem crucificado sangrando. Alguns se dirão até inspirados. Mas… E se o sangue fosse de uma mulher menstruada? Arrepiou? Corra!
Jennifer Weigell

Jennifer Weigell in The Life Blood Exhibit/Menstruation Art

Um dos episódios mais interessantes de Futurama é aquele em que se diz que o universo gira em torno da nave das personagens principais. Algumas pessoas se sentem confortáveis quando uma obra de arte faz exatamente o mesmo em torno de seus umbigos. Feliz ou infelizmente,  arte menstrual tende ao movimento: quem vê é colocado em órbita. É com essa finalidade que se faz arte com sangue menstrual. Jennifer Weigel responde suas dúvidas.

Why make art about menstruation?

Menstruation is still a taboo topic among many cultures. Many women are taught to be ashamed of their bodies and feel dirty when they are menstruating. There are still many myths surrounding menstruation, and both normal and potentially life-threatening conditions are too often not discussed, leaving individual women to wonder whether or not anything is wrong with their bodies whenever they experience any changes (sometimes even including menarche at the onset – many a girl has learned from a school nurse that what she is experiencing is normal). But menstruation shouldn’t been seen as something dirty, deviant or wrong – it is a natural function of the female body and provides evidence of women’s ability to carry children and to give birth to new life.
jenniferweigelart.com
The Menstruation Series

Julia Gallego resume a estória toda:

I made This is my Blood for the show, protesting against and reappropiating patriarchal blood.(…)The female performative body subverts the iconographic order.

Apesar de tudo isso, alguns críticos de arte tecem reticâncias para não dizer uma postura preconceituosa e irresponsável. As únicas características dessas obras, segundo essa crítica, seriam a ironia e a escala de impacto. E sobram estilhaços pelo fato de a obra não ser do grupo dominante. As pessoas gostaria dessas obras por causa dos autores e não pelo valor que tem. Suporte, elementos gráficos, composição, tudo isso é esquecido quando se fala em arte menstrual. Sobram

Irony and its scale of impact, then, are very important in postmodern art. Another measure of value the postmodern critic uses is that the work in  question be different – so long as an artist is different than the establishment their work gains automatic points. Critics see it as “daring to” stand apart from the “dominating” culture — menstrual fluids in beakers nailed to a wall as a kind of feminist protest against patriarchy, or so I assume.
Art, Postmodern Criticism and the Emerging Integral Movement

Homem na cruz não causa espanto.

Homem na cruz não causa espanto.

Certo,  imaginemos o seguinte exercício: pensar na cena crucificação por seu conteúdo irônico e sua escala de impacto. Já parou para pensar que as pessoas bebem o sangue desse homem sem prestar a menor atenção nisso ou se senirem enojada, escandalizadas… Muito pelo contrário, a idéia de beber o sangue de seu deus as congrega. Fica a pergunta: você beberia sangue menstrual? Você tocaria num objeto que tenha sido banhado nesse sangue?
Claro, são perguntas provocativas. Mas necessárias. Um dos grandes baratos da arte é a capacidade de revelar quem é você. Assumir que as únicas qualidades dessas obras seriam a ironia e a escala de impacto nada mais é que dizer aos quatro ventos que sua crítica é vazia. Que nem mesmo uma obra de arte evidente, ainda que complexa, é capaz de emprestar-lhe alguma valia.
É por isso que aposto em pintura menstrual e numa crítica menos bundalelê para 2012. Ainda que só para insiders.

Charô Nunes

Esses são textos de Charô Nunes, publicados em diversos blogs desde 2008, quando se inicia sua trajetória rumo à escrita e à intelectualidade. Alguns são textos inacabados, que serão publicados sem qualquer revisão ou adição.

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