O nome disso é transfobia. Chega.

Precisamos entender que o combate à transfobia também é uma luta por direitos da população negra. O Dia da Memória Trans*, comemorado em 20 de novembro, tem em sua origem a estória de uma mulher negra.
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Originalmente publicado pelas Blogueiras Negras.

Escrever sobre a transfobia numa semana de visibilidade trans* é ao mesmo tempo um desafio e uma enorme responsabilidade. Sobretudo porque sou parte do problema da primeira unha do pé até o último fio de cabelo. Alguém que se beneficia direta e indiretamente de tudo que está posto. Alguém que, mesmo inconscientemente, pode objetificar, silenciar e agredir pessoas trans*. Se insisto em escrever, é porque sou motivada pela necessidade de falar para outras mulheres negras que apesar de todos os esforços (e eles são muitos) ainda não foram apresentadas ao tema ou ainda acreditam que se trata de algo menor, sem relação com a negritude. Escrevo também para de alguma forma também falar comigo mesma, o que considero tão necessário quanto.

Para dizer que combinados, transfobia e racismo tem consequências ainda mais nefastas sobre a vida humana. Repito, vida humana. Para dizer que tanto um quanto o outro não são opinião, corrente teórica ou uma discussão puramente conceitual. São incompatíveis com toda e qualquer demanda pela diversidade e por direitos humanos. Acreditar que denunciar tais atrocidades é perseguição ou crime de ódio, desconsidera que as pessoas trans* (e negras) estão agindo em legítima defesa o que é radicalmente diferente. É ter tanto privilégio que se pode ser completamente desavisado sobre ele a ponto de desqualificar duplamente aquele a quem se agride.

O nome de tudo isso é transfobia.

Ela cria condições desiguais de acesso à assistência médica, justiça, educação, moradia, emprego e recursos de toda sorte. Justifica e banaliza o discurso de ódio, o assédio moral. Faz com que a intimidade e a dignidade das pessoas trans* sejam ameaçadas nas redes sociais e fora delas, torna uma tarefa simples como entrar e sair de edifícios ou usar um banheiro público em verdadeiras epopeias. Seu principal objetivo, e ela tem sido muito eficaz nisso, é a desumanização e segregação da pessoa transexual que passa a ser entendida como alguém que tem um transtorno, é “anormal”. Alguém que não é homem ou mulher “de verdade” e cuja voz sobre sua própria identidade não merece sequer ser acatada.

Precisamos entender que o combate à transfobia também é uma luta por direitos da população negra. O Dia da Memória Trans*, comemorado em 20 de novembro, tem em sua origem a estória de uma mulher negra. O assassino de Rita Hester argumentou que foi movido por um medo irrefreável de pessoas trans*, responsável por uma insanidade temporária. Recentemente, a vereadora negra trans* Madalena foi retratada como um chimpanzé. Esse é apenas um caso entre milhares. Apesar de a associação entre racismo e transfobia ser comprovadamente letal, ela não é de todo evidente e ainda precisamos caminhar no entendimento de como eles se retroalimentam e se intensificam, criando obstáculos praticamente intransponíveis.

Os números norte-americanos sobre pessoas negras transexuais são contundentes nesse sentido. Mais de 34% vive abaixo da linha da pobreza, quase duas vezes mais que que a média de trans* de outras raças ou identidades raciais (15%) e quatro vezes mais em relação à população afroamericana cisgênera (9%). Aqui as estatísticas ainda precisam ser melhor construídas mas a ordem de grandeza do problema também é inconteste e assustadora – entre os assassinatos registrados contra pessoas LGBTI (lésbicas, gays, bisexuais, transgêneros e intersexos) no Brasil, 50,5% das vítimas são travestis e transexuais, enquanto 52% se declararam como pretas ou pardas.

A transfobia também atinge duramente a urbanidade. No início desse ano em Salvador, um grupo de funcionários fez uma abaixo-assinado para impedir que uma colega de trabalho trans* usasse o banheiro do shopping onde trabalhava. Em São Paulo foi feito um protesto para denunciar problema semelhante. Fica a pergunta – como estudar e trabalhar, se você não consegue ir e vir, tomar um ônibus ou um trem sem ser ameaçada, perseguida e assediada moralmente? Segundo a Associação das Travestis e Transexuais do Triângulo Mineiro, em Uberlândia apenas 5% estão no mercado de trabalho formal. Esse é o tamanho do problema.

E ele nos diz respeito, mais ainda se nos queremos feministas. O fato de uma pessoa não ter sido transfóbica ontem, não garante que ela nunca o será. O que tenho presenciado é que, mesmo as pessoas bastante avisadas sobre o que é a transfobia, incorrem em agressões. Algumas bastante cientes do que estão fazendo, agindo por maldade; outras por desaviso e privilégio. Tanto num caso quanto no outro, o estrago e a gravidade são iguais. Tanto num caso quanto no outro não há desculpa, o estrago para quem foi agredido é o mesmo. Não podemos mais nos esconder atrás da desculpa de que entender o transfeminismo é complicado ou que as pessoas trans* precisam nos educar.

Mais uma vez, o nome disso é transfobia. Chega.

***

Esse post integra a Blogagem Coletiva pelo dia da Visibilidade Trans*, organizada pelo Transfeminismo em parceria com as Blogueiras Feministas e True Love.

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