125 anos de abolição, um mito nacional em letras minúsculas

0 Shares
0
0
0

I. EM SE PLANTANDO TUDO DÁ, ATÉ O PRECONCEITO

No dia 08 de março, a gente que é feminista tem decidir qual a melhor maneira de lidar com indesejáveis flores e outros zilhares de cumprimentos. O mesmo acontece com os ateus no natal. Com o dia 13 de maio é bem diferente. Desde que tomei ciência da data, há duas décadas, percebo que a maioria das pessoas simplesmente não fala sobre.

Dada a importância dos 125 anos de abolição, decidi escrever. Fui motivada pelo recebimento de uma jóia que está em sua 2ª edição – A Abolição no Parlamento, 65 anos de lutas. A notícia boa é que o livro, reunindo uma coleção impressionante de material sobre como a abolição foi discutida no senado, está disponível em pdf. Em agradecimento, deveria escrever um texto formal sobre o assunto…

Mas não houve tempo hábil. Ainda assim decidi compartilhar com vocês, nesse mês em que se completa 125 anos de abolição inconclusa e foi lançado o Guia de enfrentamento do racismo institucional, algumas descobertas a respeito dessa modalidade de discriminação que muitos nem sabem que existe num país onde se plantando tudo dá. Até o preconceito.

II. A IDEIA RACISTA DE QUE NÃO SOMOS RACISTAS

Muitos consideram o idioma como ingrediente essencial daquilo que cimenta da unidade nacional. Outros tantos acreditamos que a brasilidade é marcada pelo calor humano, sensualidade, cordialidade, espontaneidade. Seríamos um povo pacífico, amável. Viveríamos uma democracia racial onde nada mais importa que o mérito, já que no Brasil nunca teria existindo a discriminação racial institucionalizada.

Esse tipo de discurso que fala muito pouco sobre aquilo que o brasileiro de fato é mas explica o modo que ele gosta de ver, é o que considero um mito nacional. A ideia de que não somos racistas é assim. Não resiste ao exame mais apurado da realidade, dos fatos históricos, da estatística. Há pouco interesse desfazer nós desse tipo por esconderem a desigualdade e ajudarem a deixar as coisas mais ou menos como estão.

A abolição como a redenção de um povo por princesa é igual, uma ideia na cabeça e uma visão de mundo conveniente nas mãos alimentada pelo racismo. Uma conclusão mágica de contos de fada para três séculos de tratamento desumano que adivinhem, não teve um final feliz.com a criação de uma democracia racial cujo fundamento de fato é a equidade. Não mais uma mentira racista, dessas que servem a tanta coisa e a tanta gente.

III. EM LETRAS MINÚSCULAS

Infelizmente nada disso faz sentido para quem as coisas estão como sempre foram e o racismo onde sempre esteve, justificando horrores como a escravidão ontem e a desigualdade hoje. Muitos preferem acreditar que desde 13 de maio de 1888 vivemos em condições ideais de temperatura, pressão e meritocracia. Mesmo assim grafarei os 125 anos de abolição com letras minúsculas.

Aproveito a ocasião para dizer que muita coisa aqui será apresentada dessa maneira. Escrevo lei áurea por sua assinatura ter atendido em quase nada aos interesses daqueles cuja vida versava. Escrevo dona Isabel para dizer que não acredito na redenção, abolição para mencionar a lei tal como foi escrita, Abolição para denunciar tudo aquilo que foi e ainda é feito de caso muito bem pensado.

Como o tratamento diferenciado no serviço público, nos partidos políticos, nas empresas. Ou o menosprezo das revistas de moda e beleza, o desemprego de nossas atrizes após o término da novela, o sofrimento de nossa juventude face ao assassinato, o abandono de nossas crianças, a conquista de direitos retardada pela ausência de respaldo legal. E certamente estou sendo muito breve, muito breve.

IV. REVERÊNCIA, OFERENDAS, LOUVORES

Há muito mais a ser dito apesar de a conclusão ser quase sempre a mesma – a abolição foi insuficiente, injusta, covarde até. Infelizmente essa constatação não é um consenso, nem mesmo entre aqueles que são diretamente afetados pelo modo como foi concluída. Um dos grandes trunfos do racismo é não somente cegar quem o professa, mas também aquele a quem oprime.

Felizmente a voz de negros e não-negros em coro contra o racismo hão de oxidar o ouro que envolve a pena usada pela princesa para assinar lei tão vergonhosa. Como ateia espero que as praças sejam ocupadas. Não serão celebradas missas apesar de toda reverência e oferendas e louvores. Entraremos para história não por condenar toda uma etnia à continuada opressão mas por valorar a diversidade. De verdade.

Um sonho do tamanho do mundo e a certeza que a empreitada é maior ainda. A escravidão e seus efeitos permanecem em função do racismo que ainda justifica o impensável como o assassianto da estudante angolana Zulmira de Souza Borges, morta a tiros por motivações racistas em 2011. Que associado à transfobia, pode até mesmo condenar a 40 anos de cadeia a vítima que revida em defesa da própria vida.

(…)

Mas a semanada está apenas começando. Fica o convite para que você, se tem blogue, escreva e espalhe material sobre os 125 anos de abolição rede afora. Queremos barulho, barulho, barulho! E pode visitar o blogue amanhã, depois de amanhã e depois de depois de amanhã pois teremos mais oneirophanta sobre os 125 anos de abolição.

Isto espera ser útil / 4P

 


Esse post integra a Blogagem Coletiva Luiza Mahin organizada pelas Blogueiras Negras.


0 Shares
You May Also Like

Se essa rua fosse minha. Morte e morte nas grandes cidades.

A calçada por si só não é nada. É uma abstração. Ela só significa alguma coisa junto com os edifícios e os outros usos limítrofes a ela ou a calçadas próximas. Pode-se dizer o mesmo das ruas, no sentido de servirem a outros fins, além de suportar o trânsito sobre rodas em seu leito. As ruas e suas calçadas, principais locais públicos de uma cidade, são seus órgãos mais vitais. Ao pensar numa cidade, o que lhe vem à cabeça?

Até o ano que vem, Latinidades!

Até o ano que vem, Latinidades! Que mais uma vez será de arrepiar com o tema Cinema Negro: "Queremos discutir o papel da mulher negra nessa cadeia cinematográfica, o seu protagonismo na produção e também como atriz.

Talvez a humanóide Ameca seja um alerta. Sobre nós.

O que vai acontecer quando Ameca se tornar capaz de passar tranquilamente por um ser humano? Afinal o que faremos quando aqueles que nos servem passarem a servir a seus próprios interesses? Talvez Ameca seja um alerta de que muito brevemente a Skynet despertará de seu sono. Não se trata da revolução de robôs, mas sobre o que faremos quando ela acontecer.

Je suis desolée Moïse Mugenyi Kabagambe

"Olha a foto do meu filho, meu bebezinho. Era um menino bom. Era um menino bom. Era um menino bom. Eles quebraram o meu filho. Bateram nas costas, no rosto. Ó, meu Deus. Ele não merecia isso. Eles pegaram uma linha (uma corda), colocaram o meu filho no chão, o puxaram com uma corda. Por quê? Por que ele era pretinho? Negro? Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano.", disse sua mãe.