Internet e a voz das mulheres negras

O Blogueiras Negras aconteceu num momento em que praticamente não se discutia a presença de mulheres negras na internet, quando esse debate não era corriqueiro pelo menos. Não se falava em blogueiras negras, reflexo do meio opressor que é a rede.
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Originalmente publicado por Coding Rights em 17/02/2017.

Coding Rights entrevista Charô Nunes, das Blogueiras Negras:

CR — Como você compreende seu blog/presença em redes sociais com a militância de mulheres negras em um ambiente tão diverso como a internet? Especificamente, como é o canal de comunicação com os leitores: vocês recebem emails, comentários, em que proporção? Vi por exemplo que no blog muitos textos não possuem comentários, eles são moderados para evitar o discurso de ódio ou por alguma razão acabam não atraindo este tipo de ataque?

Charô Nunes : O Blogueiras Negras aconteceu num momento em que praticamente não se discutia a presença de mulheres negras na internet, quando esse debate não era corriqueiro pelo menos. Não se falava em blogueiras negras, reflexo do meio opressor que é a rede. A ideia foi justamente reunir nossa produção que se encontrava dispersa, de modo que pudéssemos ser pauta de nós mesmas, ter visibilidade. Mostrar que a internet, esse ambiente considerado tão diverso, não era e não é o que aparenta ser.

Eis o ponto, a internet é bem menos diversa do que poderia ser. Obviamente o panorama é muito menos homogêneo do que era em 2000, por exemplo, quando a blogosfera era coisa de homens brancos. Porém, dependendo da direção para onde se olha, ainda é. Ou seja, até que sejamos pelo menos 50% nos grandes e mais influentes espaços midiáticos, dentro e fora da internet e também nos cargos de real comando e decisão, a luta não acabou.

No caso da interação com leitoras e leitores, nós recebemos bastante contato tanto pleo blog que tem um espaço para tal, quanto por email e comentários. Grande parte dos emails são sempre contando um relato, pedindo uma sugestão de texto ou ajuda para lidar com conflitos. Nos casos dos comentários, temos dois públicos distintos. Aquele de mulheres negras que encontram em nossos textos acolhimento e o de pessoas brancas, quase sempre difundindo conteúdo racista, sexista, gordofóbico, lesbofobico, transfóbico, apenas para citar alguns casos.

Em função disso os comentários são moderados, o que causa muita frustração entre os leitores brancos que estão acostumados a ter voz sempre, não importa sobre o quê. Argumentam que lutamos por diretos humanos mas exercemos a censura, o que obviamente não nos interessa — opiniões contrárias aos direitos humanos estão em toda a parte e nosso foco é criar visibilidade para quem não a tem, não para quem sempre a teve e se acha no direito de nos atacar porque exercemos a escrita e a fala.

CR — Sendo as mulheres negras alvo constante de discurso de ódio e ameaças pela internet como vc compreende esse estar visível na web, dando voz à uma minoria historicamente excluída como as mulheres negras? A pergunta pode parecer ampla mas a idéia aqui é pensar sobre consequências que vemos da violência na internet contra minorias que geram de autocensura até mudança na rotina do indivíduo (em caso de ameaças concretas à integridade física da pessoa), ataques à servidores para gerar DoS (em caso de coletivos), etc. Como vocês se posicionam quanto à isso (se é que experimentaram isso no blog).

Charô Nunes — Uma mulher negra incomoda muita gente. Pelo simples fato de existir. Agora imagine muitas de nós questionando pública e notoriamente não apenas aquilo que se espera de nós mas também toda a violência que nos é dirigida. Esse é o Blogueiras Negras. Em função disso, já vivenciamos tentativas de silenciamento gravíssimas, Larissa Santiago, Maria Rita Casagrande, Thiane Neves e eu mesma. Todas já fomos perseguidas virtual e presencialmente, tivemos nossa integridade e reputação ameaçadas publicamente.

Os autores dessas agressões foram indivíduos denunciados em suas opressões, desde indivíduos da ultradireita, homens do movimento negro e até grandes veículos de imprensa. Individualmente, isso pode até gerar dúvidas que logo se dissipam dada a certeza de que estamos no caminho certo. E acima de tudo, não estamos sós. Seria uma desumanidade cobrar de quem é alvo desse tipo de violência que se comporte como se nada houvesse acontecido.

Muitas vezes, os ataques se concentram em nosso site, o que encaramos como parte da rotina. Quantas vezes o site cair, quantas vezes ele será recolocado no ar. E sempre mais bonito. É interessante dizer que já tivemos até mesmo nossa identidade visual copiada, tendo como objetivo nos desmotivar. Mais uma vez refizemos tudo é aqui um grande agradecimento à companheira Maria Rita Casagrande, mulher negra da tecnologia, mulher de múltiplas facetas.

CR — Muitas vezes lemos nas mídias de massa análises que apostam em uma contraposição entre o comportamento do indivíduo offline e online, quer dizer, alguns textos afirmam que as pessoas assumem uma personalidade agressiva apenas quando estão detrás de um computador por estarem supostamente anônimas. Você acredita nisso ou acha que a violência online é igual em proporção à violência que existe no mundo real?

Charô Nunes — É muito comum as pessoas menosprezarem o ativismo online porque ele não teria rebatimento na realidade concreta. Essa cobrança geralmente é feita para feministas, de um modo bastante simplista e por vezes desonesto. Esse erro, ou injustiça como queiram, desconsidera que as violências concretas e simbólicas se retroalimentam, se justificando e se naturalizando mutuamente, dentro e fora das telinhas.

Desconsidera a importância estratégica que a comunicação tem em qualquer batalha, mais ainda quando existe a necessidade de uma revolução nos modos de pensar e agir de uma parcela privilegiada da população. Assim, discutir e visibilizar em rede as violências que nos vitimam é causa e consequência de nossa atitude combativa dentro e fora da internet e também daqueles que vieram antes de nós, dentro e fora da militância.

A verdade é que nenhuma mulher negra pode ser acusada de não militar em carne e osso. Para muitas de nós que estamos sem grana para pegar o transporte coletivo ou adoecidas até os ossos pelo racismo, escrever na rede é uma vitória que não pode ser diminuída, assim como não se pode menosprezar qualquer mulher negra que enfrenta uma sociedade opressora, sendo a arrimo da casa, por exemplo, mas que não participa formalmente da militância organizada.

Um outro modo de refletir sobre a questão é imaginar uma internet onde houvesse apenas discursos de ódio contra minorias em função de sua cor, identidade de gênero, orientação sexual, crença, tipo de corpo, para sermos breves. Certamente tais conteúdos teriam, como de fato tem, um impacto nefasto sobre a sociedade em que vivemos. Não se pode, em nenhum momento, achar que seu alcance é apenas virtual porque seu discurso tem um único objetivo — silenciar, adoecer e matar, concreta ou simbolicamente, pessoas negras.

CR — No Brasil estão sendo discutidas propostas de lei (como as que estão na CPICiber) onde vemos alguns relatores e defensores utilizarem a privacidade como sinônimo de garantia da liberdade de criminosos e do discurso de ódio online. Você acredita que o controle do discurso de ódio online passa pelo controle e supervisão do poder público? Resumindo, a censura deve ser prévia e baseada na vigilância constante ou posterior? que soluções para o equilíbrio entre tolerância entre visões distintas de mundo e o que configura discurso de ódio?

Charô Nunes — Entender a privacidade como causa do discurso de ódio nada mais é que um estratagema para justificar uma censura que não tem como objetivo acabar de fato com as narrativas contra as mulheres negras e outras minorias. Tem mais relação com coibir os direitos à comunicação e ao direito à privacidade. Nesse caso os maiores penalizados seriam aqueles que estão em luta, não seus algozes que se fiam muito mais na impunidade usufruída por quem difunde opiniões de ódio do que na privacidade. Até mesmo porque essas pessoas não se escondem, nós sabemos quem elas são.

Assim, a primeira coisa que precisa ser muito bem conceituada é o que seria discurso de ódio. A atuação do Blogueiras Negras, que prima por uma comunicação afirmativa, é entendida por quem é racista como discriminação contra brancos. Essa compreensão distorcida e racista, preciso insistir, dá origem ao ódio camuflado como conteúdo afirmativo em defesa de quem já possui privilégios. O intuito nada mais é que ridicularizar a luta por direitos humanos por meio da falsa simetria. Fala -se em orgulho branco e orgulho heterossexual, só pra se ter uma ideia.

Nós entendemos como discurso de ódio toda e qualquer manifestação feita por indivíduos, grupos sociais ou estados e dirigida contra as minorias em função de suas especificidades ou de cunho afirmativo para aqueles que estão em condição privilegiada de poder. Tais manifestações não devem ser contempladas pelo direito à liberdade de expressão, sob qualquer pretexto, mas devem ser debatidas publicamente, respeitando a primazia de fala das minorias por elas afetadas e tendo como objetivo reparações e sanções legais proporcionais ao dano causado segundo as vítimas.

A censura prévia de discursos racistas seria a perda da oportunidade de apontar seus autores e visibilizar tais violências, tendo como possível consequência a permissividade para ser racista e o escamoteamento das tensões raciais, por exemplo. A gente acaba com o racismo falando abertamente sobre ele em todas as oportunidades, discutindo com nossas crianças, com nossas companheiras, cobrando publica e legalmente a branquitude, seus mecanismos e agentes. Desde indivíduos que acreditam que podem nos oferecer bananas para fazer piada, até o estado genocida.

CR — Quando falando de dar voz às minorias na internet falamos também de acesso. Como vcs problematizam ou lidam, como ativistas e pesquisadoras com a falta de acesso à internet que as mulheres negras experimentam de modo mais agudo que o resto da população? Sei que o blog só existe no mundo virtual, mas como integrantes vocês oferecem cursos, orientações, militam ou trazem discussões sobre a ampliação do acesso à web?

Charô Nunes — Em 2013, segundo o Retrato das desigualdades (Ipea), o número de domicílios sem máquina de lavar era de 42,6%. Entre as famílias chefiadas por homens brancos, esse universo era de 28,8% enquanto 54,9% dos chefiados por pessoas negras não tinham máquina de lavar. O número de domicílios sem microcomputador era de metade da população. Entre aqueles chefiados por homens brancos a proporção era de 39,6% subindo para 61% entre os chefiados por mulheres negras.

O apartheid digital não acaba quando você simplesmente coloca um computador diante de uma pessoa negra. É preciso, antes de mais nada, tornar aquela máquina sinônimo de cotidiano e não de um privilégio que foi tão custoso conseguir que deve ser usado com parcimônia em situações muito especiais. Precisamos conferir as condições materiais para que os computadores sejam não apenas comprados, mas atualizados e mantidos de maneira satisfatória.

Além disso, temos de pensar em profundidade e complexidade o fato de a inclusão digital que nem sempre se traduzir em sociabilidade, cidadania e atuação na esfera pública, porque muitas vezes ela não vem acompanhada da melhora significativa em outros marcadores ou do acesso à informação sobre o que é a rede. O mesmo acontece no mercado de trabalho. A mulher negra tem se sobressaído na tarefa de aumentar sua escolaridade, o que nem sempre vem resulta em melhores postos de trabalho.

A atuação do Blogueiras Negras tem, ainda que indiretamente, por objetivo mostrar que podemos através do acesso ocupar espaços citadinos que nos são rejeitados dentro e fora da internet. Quando você se propõe a contar sobre si e sua comunidade, estabelece uma nova relação entre pessoas, que se tornam não apenas consumidores mas fontes de informação, possibilitando uma compreensão distinta do que é conhecimento, qual é a sua finalidade e da própria mediação tecnológica em si.

Agora em outubro, teremos o Encontrão do Blogueiras Negras que pretende promover o empoderamento de mulheres negras de diversos lugares do Brasil com troca de informações, aprendizado e vivência no que diz respeito a comunicação e novas mídias e também inclusão digital. Nossa ideia é discutir, entre outras coisas, como usar a rede como ferramenta de luta, pesando o acesso como algo muito além de se ter um computador conectado à internet.

Charô Nunes é mulher negra, feminista interseccional. Mãe, não monogâmica, vegetariana, ateia, ciclista, coordenadora do Blogueiras Negras.

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