Jordan Peele e o terror da branquitude quando a pata do macaco escreve

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Jordan Peele nunca escondeu que O iluminado (The shinning, Stanley Kubrick, 1980) é um dos seus filmes favoritos. Tanto que no lançamento de Nós (Us, 2018) o ator e cineasta se vestiu de Jack Torrance. E agora Tracee Ellis Ross, a atriz que interpretou papel de Wendy Torrance para o Super Bowl desse ano, disse que adoraria trabalhar com o diretor nesse projeto.

Se o desejo da atriz e de todos nós se tornar realidade, pela terceira vez estaremos diante de um tema central nas obras de Peele: o terror da branquitude quando os corpos negros escrevem suas próprias narrativas.

Até o nome de sua produtora, Monkeypaw Production, é repleto de ressignificações ao referenciar e convidar a uma importante e desconcertante releitura de uma estória homônima que trata do horror que sorrateira e inexoravelmente bate à porta.

A pata do macaco ou A mão do macaco (Monkey’s Pawn, William Wymark Jacobs, 1902) é o conto que mais apareceu em antologias da literatura fantástica. Conta o que acontece depois que a família White decide ficar com “uma patinha mumificada que não tem nada de especial“. E seguem incrédulos quanto ao inocente amuleto que recebeu poderes mágicos de um velho faquir que “queria provar que o destino governa a vida dos homens e que ninguém pode se opor a ele impunemente“.

Ainda que a obra tenha sido largamente conhecida e muitos conheçam atrocidades como aquelas perpetradas por Leopoldo II da Bélgica, certamente poucos imaginaram que a pata do macaco fosse de fato uma mão humana. E se fosse? “E o que tem de extraordinário?” Certamente o poder da pata de Jordan Peele e tantos outros nada tem de sobrenatural, mas ainda causa em muita gente o mesmo desconcerto, espanto e espécie que Jacobs descreveu.

Em um dos trechos mais horripilantes dessa estória curtinha que você pode ler online rapidinho, o Senhor White viu rostos na lareira onde havia jogado a patinha. Um deles “era tão simiesco, tão horrível, que o olhou com espanto; riu, incomodado, e procurou na mesa o copo de água para jogar em cima dele e apagar a brasa; sem querer, tocou na pata do macaco; estremeceu, limpou a mão no casaco e subiu para o quarto.

Não haveria metáfora melhor para imaginar o que tramaram Jordan Peele e Nia DaCosta, respectivamente roteirista e diretora da refilmagem de O Mistério de Candyman (Candyman, Bernard Rose, 1992). Se em Corra! e Nós vimos a pata se mexer nas mãos do Senhor(a) White, sabemos que se aproxima “uma escuridão sufocante”. Não vai adiantar tentar apagar a brasa.

Na lareira não há apenas um rosto, mas muitos.

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