Sobre a atuação totalitária da bancada evangélica

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Índio nasce índio, não tem como mudar. Negro nasce negro, não tem como mudar. Mas quem nasce homossexual pode mudar. Até a palavra ‘homossexual’ deveria ser abolida do dicionário, já que se nasce homem ou mulher.

Marco Feliciano, atual presidente da Comissão de Direitos Humanos

Semana passada fiz questão de declarar o quão triste é presenciar a construção de um regime totalitário. Pra nossa alegria, ainda estamos um pouco distantes de modelos clássicos como o alemão, russo ou italiano, de deixarmos de ser um estado laico. Ainda assim, a atuação do que se convencionou chamar de bancada evangélica tem sido muito mais que uma simples ameaça à ideia de estado democrático de direito.


I. A DUPLA UNÇÃO

Após uma vergonhosa eleição à portas fechadas, o pastor e agora presidente da Comissão dos Direitos Humanos expressou sua alegria no twitter através de uma tag bastante curiosa – rumoaogovernodosjustos. Também fez questão de publicar um vídeo no qual interpreta um choro comovido ao lado de seus alidos para mostrar com muita demagogia “o que faz um homem de deus depois de uma grande luta”.

Ao pesquisar o significado de uma tag tão absurda descobri que o Governo do Justoé “um projeto suprapartidário elaborado e proposto pela liderança da Igreja Cristã no Brasil com o objetivo de levar a igreja de Jesus Cristo a tomar posse da estrutura política de cidades, estados e nação, influenciando o meio político com os princípios do Reino de Deus.”

Sua principal característica é um híbrido entre a ideia de direito divino e o culto ao líder (sim, acredite) que recebeu o nome de “dupla unção” para descrever a inequívoca (!!!) a vocação divina que seus líderes espirituais teriam para a política. Imagino que muitos não ficariam vermelhos ao citar Davi e Salomão para justificar o lançamento de candidatos comprometidos “com os princípios do Reino”.


Totalitarismo - Cancele seus sonhos!
Totalitarismo – Cancele seus sonhos!

III. MODUS OPERANDI

Antes de mais nada, sigo afirmando que a atuação da bancada evangélica é muito mais que um temeroso ataque aos direitos fundamentais do indivíduo. Como o que já é muito ruim sempre pode ser piorado, é possível identificar outros dos conceitos característicos de regimes totalitários de direita sendo reeditados sob o verniz de questões de fé.

  1. A adoção de valores religiosos em associação ao capitalismo é uma dupla explosiva. a) Temos a famigerada teologia da prosperidade fazendo o rapto emocional e financeiro de fiéis, alimentando a conta bancária de pastores cada vez mais ricos, com direito a lista da Forbes só pra eles e b) a fundamentação ideológica em valores tradicionais alimentando a violência contra todos os indivíduos que não submetem suas vidas aos discursos bíblicos e que portanto não redem dividendos aos cofres das igrejas.
  2. O expancionismo também se faz presente por meio de discursos evangelizantes, com as igrejas buscando aumentar sua carteira de fiéis dentro e fora do país, muittas vezes destruindo a cultura de tradicional de povos tidos como mais primitivos.
  3. A arte como instrumento de controle – As minisséries televisionadas pela Rede Record são exemplo de como a ideia de dupla unção tem sido mostrado ao público. “O desafio de Elias”, “Rei Davi”, “Sansão e Dalia” e mais recentemente “José do Egitoaté podem ser considerados entretenimento inofensivo mas estão muito longe disso.
  4. A patrulha da saúde, da moral e dos bons costumes é tão necessária que já temos leis versando sobre o assunto. Os foras da lei somos todos que não contribuímos, que ousamos escolher com quem vamos nos deitar, como viveremos nossa corporeidade. Que não nos deixamos vencer pela cisnormatividade, pelo racismo, sexismo. Que lutamos contra o especismo.
  5. a censura aos meios de comunicação e expressão acontece por meio da concentração desses recursos nas mãos de algumas denominações. Não interessa noticiar por exemplo que a OMS há muito desconsidera a hamossexualidade uma doença, que o mesmo pode acontecer com a transexualidade. As igrejas que ainda não tem seu próprio canal e vinculam apenas o que bem entendem, exercem o poder de compra para televisionar sua doutrina. Trata-se de uma prática extremamente lucrativa quando associada à captação de recursos. Outra tendência é criar conteúdo para a internet.
  6. A repressão a dissidentes políticos e ideológicos também ganhou nova roupagem com o ataque a todos aqueles que se opõe ao governo do justo. Somos descritos como “a corja gay”, “a ditadura da homossexualidade”, “depravados”, “cachorras”, “periguetes”, “analfabetos espirituais”. E mais, em breve tudo o que foi dito aqui poderá ser enquadrado como crime de perseguição religiosa.

IV. EU TENHO MEDO E VOCÊ?

Francine Emília chamou a atenção para o fato de que nem todos aqueles os crentes apoiam a atuação da bancada evangélica, denominada por uma expressão que carrega um quê de preconceito. Acabei acolhendo, por pura falta de originalidade, o uso consagrado do termo apesar de entender que nem todos os evangélicos são do mal e ficar muito feliz que exista algo como a Rede Fale.

Mas sinto a necessidade de dizer que a regra, quando o assunto é a bancada evangélica, não tem sido o diálogo e a tolerância mas sim de apego à práticas totalitárias. Isso me dá muito medo. Não apenas por mim, mas por minha família e por tantas outras famílias que conheço. É por isso que decidi falar abertamente sobre o meu ateísmo e as minhas não crenças.

E apesar de esse texto ser não mais que um rascunho, sinto a necessida de publicá-lo como está. E o motivo é bem simples, sobrevivência.


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