Anotações sobre a tragédia em Santa Maria

0 Shares
0
0
0

I. Uma madrugada triste em Santa Maria

Vinde pois, contemplai ruínas desoladas,
restos, farrapos só, cinzas desventuradas,
os meninos e as mães, os seus corpos em pilhas,
membros ao deus-dará no mármore em estilhas,
desgraçados cem mil que a terra já devora

Sobre o desastre de Lisboa, Voltaire, 1756.

Aos idos de 1° de novembro de 1755, por volta de 9h30 da manhã, a cidade de Lisboa viveria um dos seus maiores desastres natuais. Nada menos que um terremoto de magnitude 9 na escala Richter seguido por um maremoto que também atingiu a costa leste dos Estados Unidos. Não é sabido se o abalo durou poucos minutos ou 2 horas. Sobre o número de almar perdidas, estima-se que 90 entre 200 mil lisboetas pereceram.

Aqui, a inexorável escuridão da fumaça tóxica sorveu uma madrugada que nada tinha de absolutamente feliz ou  triste. De repente, todos os seríamos surpreendidos com a notícias que havia mais de 200 vítimas e a assustadora hipótese de que os seguranças teriam obstruído as rotas de fuga para os clientes não saisssem sem pagar. Muitos dos que haviam sobrevivido, morreram tentanto salvar mais gente.

Apesar de tamanha tristeza, quanto mais informação, menos eu sabia o que fazer. Tentei acompanhar a enxurrada de informação de toda sorte nas redes sociais. Nas minhas timelindas apenas solidariedade, consternação. Muita gente se organizando para distribuir mensagens, reunir mão de obra especializada, voluntários, dinheiro, remédios e mantimentos. Hora de deixar fazer quem sabia o que fazer.


II. Enterrar os mortos e cuidar dos vivos

Às vezes, quando à dor os dias consagramos,
pela mão do prazer os prantos enxugamos;
mas o prazer se vai e como a sombra passa;
sem conta nossas são perdas, choro e desgraça

Sobre o desastre de Lisboa, Voltaire, 1756.

Dom José I não estava em Lisboa no dia do incêndio. O palácio do primeiro-ministro e futuro Marquês de Pombal também sobreviveu. Assombrado com a proteção divina da qual gozava seu funcionário, o rei deixou a tragédia sob seus cuidados. A cidade foi cercada para impedir a fuga de mão de obra e 34 pessoas foram executadas publicamente para mostrar que nada escaparia ao controle.

Conta-se que o Marquês fez a área antingida de escritório, aonde despachava suas ordens. Sua atitude enérgica foi eternizada por uma frase apócrifa. Quando o rei lhe perguntou o que deveria ser feito, teria respondido – “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”. E assim, com a ajuda de engenheiros e arquitetos,  a cidade estaria completamente reconstruída em apenas dois anos. Nascia a Baixa Pombalina.

Coincidentemente, Dilma também não estava aqui no momento da tragédia em Santa Maria. Voltou muito rapidamente do Chile, deixando para trás todos os compromissos para visitar o local da tragédia. Como Dom José I, enviou um ministro para auxiliar os sobreviventes e coordenar as ações do governo federal na cidade. Gosto de pensar que essa é a única decisão possível para uma estadista numa ocasião como esta.


III. Um dia hão-de achá-las estreitas

Para prevenir incêndios e terremotos, adotou-se o chamado Urbanismo Pombalino. O traçado das ruas em formato de grelha, a adoção de comércio no primeiro andar dos prédios e um sistema de distribuição de água para que todo quarteirão tivesse um poço e rede doméstica de esgotos. Sobre o tamanho das ruas, o Marquês de Pombal teria dito – Um dia hão-de achá-las estreitas. Ele estava certo.

O Marquês de Pombal expulsando os jesuítas (pintura de Louis-Michel van Loo e Claude-Joseph Vernet, 1766).

Mais de dez anos após o início da reconstrução da cidade, o Marquês de Pombal seria retratado com a pompa e circunstância expulsando os jesuítas, por Louis-Michel Van Loo e Claude-Joseph Vernet em 1766. Atrás de si, no canto superior esquerdo, a maquete de um monumento. Aos seus pés, plantas da cidade. Do lado oposto, nuvens negras parecem se dissipar enquanto as embarcações jesuítas estão de partida.


IV. Nossa vida, nossos mortos e os caminhos tortos

Minha dor, ó Cruéis, não consintais que ultrajem.
Não, não me apresenteis ao peito em ansiedade
as imutáveis leis de uma necessidade,
corpos a encadear, e espíritos e mundos

Sobre o desastre de Lisboa, Voltaire, 1756.

Na televisão, inúmeras coberturas extraordinárias tentando reconstituir a catástrofe em Santa Maria – um sinalizador em contato com o forro do teto, um extintor de incêncio que não funcionou, rotas de fuga obstruídas de propósito, fumaça tóxica, corpos amontoados, celulares tocando em bolsos inertes Quanto mais informação, menos eu sabia o que fazer.

Num cantinho direito do coração, o medo de que a catástrofe seja reduzida a uma citação na retrospectiva de final de ano. Veja por exemplo o caso dos bueiros no Rio de Janeiro, Alguns meses atrás, houve mais uma explosão em Copacabana. Apesar de o acidente ter acontecido numa área bastante movimentada da cidade, o caso não parece ter tido um desfecho satisfatório.

O mesmo descaso com as vítimas da região serrana do Rio de Janeiro em 2011. Foram 916 mortes e aproximadamente 345 desaparecidos. Que eu saiba, nenhuma obra foi realizada com o intuito de pelo menos amenizar o impacto das chuvas. Nenhuma família dignamente realojada. E pasmem, um funcionário do Crea Rio chegou a afirmar que solução para o problemas das chuvas seria não chover.


V. Lisboa é destruída e dança-se em Paris

Direis do amontoar que as vítimas oprime:
“Deus vingou-se e a morte os faz pagar seu crime?”
As crianças que crime ou falta terão, qual?,
esmagadas sangrando em seio maternal?
Lisboa, que se foi, pois mais vícios a afogam que a Londres ou Paris, que nas delícias vogam?

O incêndio em Lisboa tenha sido encarada como um castigo divino, é bastante previsível. Mas ninguém me preparou para o fato de que fariam o mesmo com a tragédia de Santa Maria. Gente dizendo que aqueles estudantes mereciam morrer pois estavam na putaria, bebendo. E mesmo que estivessem, mereciam morrer? Só porque eu e você não bebemos e temos outras putarias?

Agora, até mesmo os mortos estão sob a odienta ideia de moral e bons costumes. A ira divina os matou porque dançavam bebiam e festejavam. Recentemente, o surgimento de leis para oprimir tudo aquilo que é o outro, tudo aquilo que não sou eu. A sensação de que a fumaça tóxica dos incêndios em Lisboa e Santa Maria se transforma em outra e segue contaminando muitas mentes e não sei quantos outros corações.

Apesar de estar com a respiração dolorida, os olhos merejados pela mórbida curiosidade de ver as imagens, optei pelo distanciamento em respeito as vítimas e a mim mesma. Algumas fronteiras jamais devem ser ultrapassadas. De caso pensando decidi não fazer comentários nas redes sociais, não assistir jornais sobre. A única reação possível é o escrever e silenciar. No mais, respeitar quem fez diferente de mim.

Luto Santa Maria.


VI. Lincaria

Conheça o complexo arquitetônico chamado de Real Barraca. Leia na íntegra o poema de Voltaire, traduzido por Vasco Graça Moura.

0 Shares
You May Also Like

Se essa rua fosse minha. Morte e morte nas grandes cidades.

A calçada por si só não é nada. É uma abstração. Ela só significa alguma coisa junto com os edifícios e os outros usos limítrofes a ela ou a calçadas próximas. Pode-se dizer o mesmo das ruas, no sentido de servirem a outros fins, além de suportar o trânsito sobre rodas em seu leito. As ruas e suas calçadas, principais locais públicos de uma cidade, são seus órgãos mais vitais. Ao pensar numa cidade, o que lhe vem à cabeça?

Até o ano que vem, Latinidades!

Até o ano que vem, Latinidades! Que mais uma vez será de arrepiar com o tema Cinema Negro: "Queremos discutir o papel da mulher negra nessa cadeia cinematográfica, o seu protagonismo na produção e também como atriz.

Talvez a humanóide Ameca seja um alerta. Sobre nós.

O que vai acontecer quando Ameca se tornar capaz de passar tranquilamente por um ser humano? Afinal o que faremos quando aqueles que nos servem passarem a servir a seus próprios interesses? Talvez Ameca seja um alerta de que muito brevemente a Skynet despertará de seu sono. Não se trata da revolução de robôs, mas sobre o que faremos quando ela acontecer.

Je suis desolée Moïse Mugenyi Kabagambe

"Olha a foto do meu filho, meu bebezinho. Era um menino bom. Era um menino bom. Era um menino bom. Eles quebraram o meu filho. Bateram nas costas, no rosto. Ó, meu Deus. Ele não merecia isso. Eles pegaram uma linha (uma corda), colocaram o meu filho no chão, o puxaram com uma corda. Por quê? Por que ele era pretinho? Negro? Eles mataram o meu filho porque ele era negro, porque era africano.", disse sua mãe.