O funk como acontece e como é mostrado na televisão

E se ainda não falei, acho que é a hora – sim, estou falando sobre racismo. O problema do funk é o mesmo do samba e da capoeira em seus primórdios. Para os mais americanizados, o mesmo do jazz e do rock.
0 Shares
0
0
0

Interessante observar como as culturas de gueto são digeridas e entregues para o grande público. Foi assim com o punk e o grunge (só para citar dois exemplos que presenciei) é assim com o funk. Quer dizer, mais ou menos. Os primeiros deixaram de ser uma manifestações culturais de grupos muito específicos e se tornaram negócios mundialmente rentáveis, quase universais.

Com o funk, apesar das inúmeras tentativas, até o momento o alcance dos produtos originais é mais expressivo que qualquer apropriação. Resumindo, as releituras simplesmente parecem não funcionar e soam pouco palatáveis. Mas, se tomarmos como exemplo outra cultura jovem de preto como o rock, tudo pode mudar.

O FUNK COMO ACONTECE E COMO É MOSTRADO NA TELEVISÃO

O clipe oficial de Ah Lelek Lek Lek Lek tem, até o momento, exatas 10,708,209 visualizações. Custou 70 reais e faz referência ao nome de um dos cantores do grupo Mc Federado e os Leleks. Detalhe – esses garotos usam pequenos vidrilhos colado aos dentes para compor o clima de funk ostentação. Desnecessário dizer que o protagonismo do vídeo é de pessoas negras.

Um dos primeiros a dar visibilidade a esse trabalho foi o Neymar que, além de futebolista, tem sido uma espécie de pára-raio cultural. É claro que a industria acompanha o fenômeno e tenta tirar uma casquinha do que acontece na periferia. O problema é que essas o modo como o fazem soam nada menos que patéticas. Vide o Esquenta de Regina Casé que chove, chove e chove no molhado apesar de toda sua boa intenção.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=E1AC_k9izjY]

Recentemente em Malhação, uma das duas personagens negras (se não me engano) pede a ajuda dos amigos brancos para fazer seu clipe. O resultado é um prato indigesto, sem qualquer originalidade. Lembra os primeiros bailinhos de rock dos quais temos registros imagéticos, em que o cantor é negro enquanto o público é completamente branco.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=ZRHJxfUka1o]

É SOM DE PRETO, É SOM DE FAVELADO

E se ainda não falei, acho que é a hora – sim, estou falando sobre racismo. O problema do funk é o mesmo do samba e da capoeira em seus primórdios. Para os mais americanizados, o mesmo do jazz e do rock. Argumentam que falta originalidade, conteúdo. Afinal, expressões pós-modernas numa Bienal são assunto para os críticos de arte. Mas quando cantadas por jovens negros da perifa é assunto de polícia.

Mesmo assim tenho certeza que a pasteurização e branqueamento do funk não são impossíveis, é apenas uma triste questão de tempo. Não me surpreenderá o dia em que muitos se assustarão em ver jovens negros tocando essa música que originalmente é nossa. Quem lembra dos Glamour Boys do Living Colors sabe muito bem do que estou falando…

0 Shares
You May Also Like

Um Egito Negro incomoda muita gente

Usurpar patrimônio africano não basta, também é necessário embranquecer seus sujeitos. Tanto na série José do Egito (atualmente em reprise pela Record) quanto em Êxodo: Deuses e Reis as personagens são majoritariamente brancas. Os realizadores são incapazes de reconhecer que todo um complexo sistema de crenças, filosofia, arte, arquitetura, astronomia e medicina são coisas de preto. Qualquer movimento diferente disso, mesmo a simples hipótese de que os antigos egípcios era negros, é vandalismo demais para aguentar.

Candyman como um pesadelo urbano

O monstro mais assustador do mundo são os seres humanos e tudo o que somos capazes, especialmente quando estamos juntos. Estou trabalhando nessas premissas sobre esses diferentes demônios sociais. Esses monstros inatamente humanos que fazem parte da maneira como pensamos e interagimos. Cada um dos meus filmes será sobre um desses diferentes demônios sociais.

Video killed the radio star

Pois é. É ruim mais eu gosto. Gosto new wave e duvidoso (retumbante redundância) não se discute. Compartilha-se…

Era uma vez um álbum chamado Rumours

Uma das minhas paixões musicais nesse momento é coisa das antigas como sempre: Rumours (Fleetwood Mac, 1977, Grammy de melhor álbum em 1978). Só tem uma faixa que odeio, a "Songbird". Mas até essa vai acabar me pegando apesar de ser tão previsível.